segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Momentos

São momentos. São dias. São determinados apetites insatisfeitos e melancólicos que já trazem o cheiro de uma nostalgia que nos prende e que nos não quer largar.
O mundo é tão grande, tão grande e eu sou tão pequena.
Às vezes oiço o vento e canto sozinha só para me ouvir e não me sentir desacompanhada mesmo quando só quero estar comigo.
E sim, lembraste? Lembro-me de tanta coisa, de tanta coisa que ficou a pairar na minha imaginação e outras tantas que ficaram estagnadas no patamar do indizível querendo soltar-se, mas sempre com renitência.
Oiço uma música que vem de dentro e faz-me render-se-lhe. Entrego-me e deixo-a guiar-me, parece saber bem mais que eu. Esqueço-me do momento e penso nostálgica naquilo que passou e em todas as coisas que são tanto para além de mim.
Lembro-me que o tempo passa de rasgão e acena-nos depois com um sorriso nos lábios como se soubesse a falta que nos faz, a marca que nos deixa e este sentimento sempre insaciado de querer que se chegue mais de perto, só para lhe vermos o rosto de relance, só para sentirmos o que já sentimos, só para tentar esconder a saudade.
A saudade tal como a nostalgia são ambos sentimentos fortes e, nalguns casos, insaciáveis. Isso fá-los grandes, concedendo-lhes um valor tal que nem temos logo noção.

O Novo

Sinto o cheiro a novo, um aroma bissexto que paira no ar e fica e se entranha e é todo ele carregado de esperança, de novidade, de força.
Parece que o erro não tem aqui lugar, anda perdido, desencontrado.  A vontade de sorrir é incontrolável. Pairam pensamentos idealistas, novos conceitos, novas tarefas, novos objectivos para concretizar, novas alegrias e tudo isto se espera num dia tão solarento como o de hoje.
Imagino com a coragem que as palavras se libertam da boca como passarinhos que começam a voar pela primeira vez, carregados de inexperiência e cobertos de uma inabalável esperança. Os seus olhos brilhantes, reluzentes de confiança, cantam agora uma insipiente canção, acompanhada apenas de um sentimento puro e profundo, genuíno, apelando à crença na Felicidade.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O r

Carregando no “r” para ser mais alguma coisa estrangeira
É a melodia que canta para si mesma
Ser um tanto mais ao lado, mas nunca passageira.
Que nos canta e reporta
Porque é sempre mais do que aquilo que se regozija
É o reencontro com um ser-do-eu
Que nos segreda por entre paredes revoltas
Que mais do que ouvir e ser
É ser para se ouvir e conhecer.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Opismo

És o meu ópio. E eu queria tirar-te de mim. Pensei que por falar as palavras fossem o mais alto, me aliviassem e que me não fizessem sentir desnorteada, perdida, num fervilhar emocional que já não devia sentir.
Queria muito  viver o ‘fairytale’, mas o meu querer é tão intenso que deturpa a realidade em função do mesmo. Eu não estou a vivê-lo, nem o vou viver. Digo-me inúmeras vezes, queria gritar-me para ver se me entra!
- “Ama-te!” – digo-me. Digo-me, mas não me oiço. É sempre aquele pensamento que me não deixa dormir, como se numa outra realidade tivesses sido o meu salvador, como se viesses com uma acção inimaginável e nunca de desistência, dizendo que me querias e não descansarias até o conseguires por tudo aquilo que eu era… que ilusão.
Estou tão confusa, queria tanto viver este sonho irreal. Porque ainda vives em mim, dei-te de mim como nunca antes a ninguém.
Talvez o melhor seja mesmo esperar sete meses para nunca mais te ver, talvez aí desapareças e eu te esqueça.  Não sei se é por seres orgulhoso demais ou por não me quereres assim tanto ao ponto de lutares então não vale a pena ocupares a minha imaginação.
Fizeste-me fraca. Rendo-me ao primeiro olhar e agora “moro do rés-do-chão do pensamento.” Opiário, Álvaro de Campos.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Rosa Para Mim

Sim são, são mais as palavras do que aquilo que eu sei dizer de mim. Que sejam conversas com um só interlocutor, que o sejam. O tempo corre por mim e percorre-me, ultrapassa-me e mostra-me o quão fugaz é. Talvez não me tenha apercebido que as palavras são sempre queridas enquanto puderem ser tornadas audíveis pois o mudo mata-me por dentro.
Se o olhar falasse talvez eu não me desfizesse e ouvisse. Mas o olhar apenas me faz crer num "se" que nunca mais poderei tomar como verdadeiro. E distaram progressiva e dolorosamente as palavras e assim se vai distando o teu olhar. Está já tão vazio, tão longe de tudo, de nós, do mundo, de ti.
Os teus olhos grandes vêem tanta coisa e parecem tão perdidos. Dei-te a mão para saberes que é seguro, mas tu não reagiste. Olhaste-me tão intensamente que talvez me tenhas visto por dentro, ou fizeste um esforço sobrenatural para saberes quem eu era, ou simplesmente olhaste no vazio. Isto tudo fez-me lembrar-te e perceber que serias o meu primeiro tópico desta minha escrita já tão enferrujada. Lembrei-me e lembro-me do quão presente sempre me foste mesmo quando o não vi. Mulher palavrosa no sentido de seres mesmo cheia de palavras. Palavras gordas daquelas um tanto ou quanto baralhadas e algumas dispensáveis, mas sempre gordas. Nunca nada ficou por dizer. Talvez saia a ti ou não fosse eu mesma, tal como tu, palavrosa, com tantas elas baralhadas e tantas outras dispensáveis.
É bom lembrar-me de ti e pensar que o tempo que te roeu nos rói também por não te poder sentir receptiva. Queria mostrar-te como cresci, queria tanto dar-te aquele abraço infindável antes da última palavra. A última palavra. Foi tão louca, tão insignificante, tão fugaz e submissa, mas tão tua. Uma daquelas que nunca guardavas debaixo da língua e disseste sempre tudo até mais não poderes.
Sinto a tua falta como nunca pensei que fosse sentir. Sentimos todos e nem sei se sabes o quanto.
Sei aceitar muita coisa, mas custa-me tanto aceitar-te assim. Aceitar que isto és tu no agora e depois e nunca mais como antes.
És como uma pura, linda e inesquecível Rosa para mim, uma das melhores plantações do meu jardim.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Nada Quero

Talvez seja do calor, ou antes da falta dele. Como se tivesse secado as lembranças que residiam numa velha caixa de madeira empoeirada e com tão pouco já para nos dizer.
Não que escondesse segredos ou que fosse ela tudo mais que alguma coisa, mas era tão somente aquela caixinha de memórias que guardei com carinho até dela mesma me esquecer.
É como se fosse em tempos uma cascata onde simplesmente a água parou de cair quando o tempo tudo secou.
Choveu há dias. A cascata com pouca água corre, mas corre com uma outra corrente. Não sabe para onde vai, nem tão pouco sabe porque vai, apenas segue o seu percurso como se nada a ninguém devesse, como se corresse porque também o parar de nada serve e assim talvez conheça um campo ainda não conhecido.
E as lembranças? Quem as lembras? As memórias? As memórias nada mais são do que algo que me empoeirou e me cegou os olhos, que me fez os ouvidos moucos e das minhas palavras alterações sintácticas. Não quero as memórias, quero o sem rumo. Quero o que nunca quis. Não quero. Quero o que não quero.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Arrancar-te de mim

Continuo sem conseguir formar frases, mesmo a minha junção de palavras parece desabitada, há sempre elementos em falta ou sem ligação.
Atrevo-me a dizer que ainda choro num mar não respondido nem correspondido, dolente e rebelde, revolto. Caminha na minha direcção oposta e vem contra mim, com um sede de me querer limpar a face imunda de pensamentos pecadores e dizer-me tudo aquilo que sei, mas que não quero ouvir.
Se pudesse, se pudesse, arrancava-o de dentro de mim, com as minhas próprias mãos, deixando escorrer o sangue que algum dia te marcou de alguma forma em mim. Peso morto, queria-te assim para mim. Queria ver-te sem interesse, queria que tu seguisses e fosses feliz sem mim e sem me importar, queria eu ser sem te carregar ao peito.
Larga-me. Desespero.
Não sei que fazer. Fazes de propósito para te não esquecer.
E eu, que ingenuamente em tudo e todos acredito, também a ti não te consigo não falar quanto mais não te sentir.