É engraçado como dentro do baú tudo o que sai tem pó e um grande peso temporal.
Sinto saudades minhas, se é que é possível. De quem eu era, daquela rapariga particular que acreditava nas pessoas e podia até pensar de modo semelhante a tantas outras, mas era peculiar à sua maneira. Agora vejo alguém que pelo caminho deixou cair palavras e nunca ninguém as apanhou. Perdeu-se, perderam-na. Não sente, não se sente, não é sentida.
O seu toque é frio e a sua pele é pedra. Perdeu a cor e o brilho, só vê prosa, perdeu a rima.
A inspiração que a definia, que definia e diferenciava os mais próximos dos mais apartados. Usava a prosa para a desgraça e a poesia sempre para o sorriso.
Não sei quem escreveu as palavras do poema que encontrei perdido no baú. Sentia-o como algo distante ao ponto de ter a necessidade de relembrar, mas não o pensei tão inocente. Cada palavra era uma promessa, era um brilho no olhar de uma rapariga ingénua e menininha que não fazia a menor ideia de que as palavras magoam e as mentiras, pois bem, moldam o mundo. Não sabia que este eien teria a importância que se mostrou e que o erro nos emaranhasse e parecesse luz.
Ler as minhas palavras, ler as tuas. Já faz alguns anos. Não é que estejamos velhinhos, mas as palavras tornam-se velhas e os sentimentos também. Transformam-se. Acho que compreendo agora um filme que me incomodou tanto, talvez porque não queria aceitar a sua veracidade.
Às vezes, mesmo que realmente se sinta algo por alguém, com o nosso crescimento, também crescem os sentimentos e não quer isso dizer que não tenham sido verdadeiros, mas por vezes quando estes crescem, crescem em direcções opostas. Não creio que tenha sido esse o nosso principal impedimento, mas aquilo que me impede de acreditar é a sensação que tenho que nunca sei se é real ou fictícia, os teus indícios não são concretos e deixam-me sempre à borda de água.
Não te consigo escrever, mas tinha que me escrever a mim. É tempo de me acertar, de me encontrar sem saber como. Apesar de magoar, não vejo a minha ingenuidade como algo difamatório mas antes como algo puro e importante, raro.
Sei que as tuas antigas palavras não me pertencem, as atitudes mostram-no à luz do dia.
Queria não me inventar desculpas e ir à minha procura. Mas o fim é sempre o amanhã e enquanto este chega e não chega, a rapariguinha que talvez um dia qualquer te interessou, afasta-se, de ti e de mim. Vai para longe, desencontrar-se.
As nossas roupas estão apertadas demais, engordamos a nossa personalidade, resta saber se no sentido certo.
terça-feira, 15 de maio de 2012
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Utopias
Queria evadir-me daqui para um lugar verdadeiro. Queria sentir que pertenço. Queria não ser demasiado ingénua, queria não acreditar. Queria ter um coração de pedra. Queria ser sem ser. Queria tornar-me num símbolo de força. Queria ser paz. Queria ser luz. Queria ser o que não consigo ser. Queria não ser o que me tornam. Queria ser querida. Queria ser dona do indizível. Queria não me afogar. Queria ser um barco de resgate e não resgatada. Queria ir sem vir.
Queria que as minhas utopias fossem concretizáveis.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
"Por Isso Vem"
Nem toda a claridade é luz porque o claro por vezes é apenas uma pequena impressão que temos da imensidão da escuridão. As suposições nada mais são do que palavras engolidas pelo negro, pelo fundo e perdem-se no Nada.
O sentido deixa de o ser e dá lugar a tudo o que se lhe opõe, transforma-se naquilo que nunca foi. Curioso... poderemos também ser aquilo que não somos? Quiçá as encruzilhadas da vida não nos levam a fazer essa mudança que dissemos tão vigorosamente que nunca as faríamos. O nunca é como o sempre, são opostos que no fundo querem dizer a mesma coisa - não nos utilizes - porque as voltas que damos são mais que muitas e estas palavras nunca (cá está) viverão do seu verdadeiro sentido. São verdadeiras utopias, inconcretizáveis mas sonhadoras, promessas que sabemos que não sabemos realmente se alguma vez se haverão de cumprir, porém, dizêmo-las de qualquer forma. Saem simplesmente, com uma firmeza tal que se crêem como realizadas.
Na realidade o que me aflige são as palavras, são a minha dor, o meu tormento. Porque para mim estas pequenas verdades são isso mesmo, pequenas verdades. Cabe aos seus utilizadores o seu bom ou mau uso. Aqui entra então o conflito porque por muitas expressões que pensemos, a priori, corresponderem a certas palavras têm compreendidas no seu interior as suas contradições. São as tais palavras que não se ouvem de início e que quando se fazem por ouvir querêmo-las mudas.
Por isso, mais do que qualquer outra coisa é uma dor psicológica que não passa, mantém-se cá para nos relembrar a sua existência.
Ainda vivo na utopia de que nem todo o claro é escuro, de que nem todas as palavras significam na maioria dos casos o seu oposto, de que nem todas as pessoas se refugiam numas por negação a si próprios. Vivem rebeldes com o seu interior, lutando para se encontrarem, para saberem que palavras vestem, para saberem que expressões são transparentes e o que querem passar de si próprios.
Talvez ainda viva também eu muito em rebelião comigo mesma, mas a minha transparência é clara e o meu uso de “pequenas verdades” tem o seu total sentido e não o contrário. Não me refugio em antíteses para esconder o medo. Mais vale admitirmos que a nossa carapaça não é de ferro é igual a todas as outras. Julgo que seja esta a forma correcta e, por isso, nada mais é do que uma utopia que nem eu consigo sempre fazer jus à mesma. E porquê? Porque o sempre e o nunca são também utopias com as quais cometemos sempre o erro de as proferir e quebrar, atrevo-me a dizer que são promessas que são à partida quebradiças.
domingo, 18 de março de 2012
Com que palavras te vestes?
As palavras voam com as asas grandes que têm. Assumem as formas mais diversas e percorrem os caminhos mais encruzilhados, mais empalavrados, mais indefinidos, mais ou menos sábios, mais ou menos queridos. Sabem estar a qualquer momento sumptuosas, sempre que bem pronunciadas, e exaltam-se tal qual um pavão vaidoso, tão cheias de si, ostentadoras de verdades. Assim as queremos tomar, como verdades. Mas a Verdade como tão bem a sabemos também ela percorre um caminho denso e frívolo, ou não fosse ela própria uma palavra, de modo que dificilmente as distinguimos de todas as outras. Soam de igual forma, embora umas nos sejam mais próximas que outras. Por vezes nem tanto pelo seu significado, mas por quem as diz. Acho bastante engraçado a importância que os sentimentos têm em todas as coisas. Tudo depende disso mesmo.
Tenho um afecto particular por estas locuções voadoras tão certeiras, tão indispensáveis, até mesmo quando não assumem a sua forma original sabem transmitir-se de tantos outros modos.
Tenho um afecto particular por estas locuções voadoras tão certeiras, tão indispensáveis, até mesmo quando não assumem a sua forma original sabem transmitir-se de tantos outros modos.
Talvez seja por isso tão difícil receber aquelas que são proferidas singulares, frias, desacompanhadas, ditas para matar, para ferir. Uma vez expressada cá para fora não há como a colocar outra vez lá dentro, quanto muito, muda-se o discurso para algo ainda mais palavroso, construído por camadas de palavras, para que prevaleçam as de cima e não a da base, a que sustentou tudo aquilo que não deveria ter sido dito. É, portanto, um controlo que nem sempre temos, principalmente sobre aquelas que dizemos sem falar. Dessas poderá dizer-se que são as mais espontâneas e sinceras, porque são momentâneas, não são pensadas, dizem-se simplesmente porque é uma reacção a qualquer coisa e, como tal, agem primeiro que o próprio pensamento.
Contudo, nem todas elas se rodeiam de amigos que gostamos de ter por perto e por essa mesma razão, nem todos os encontros são bons. Nem todos vêm na altura que queremos porque estão por todo o lado e entram sem permissão. Umas ficam, outras dão lugar a novas e são as que ficam que nos moldam. É com essas palavras que nos definimos sem termos bem a noção de que as vestimos. É uma roupa de palavras. A grande questão que reina em todos nós e que queremos sempre saber mesmo que, no entando, nunca se obtenha a essência da pessoa, é levantada quando nos perguntamos interiormente “Com que palavras te vestes?”
sexta-feira, 16 de março de 2012
Pedras da Calçada
Continuo a caminhar em círculos, sem direcção nem rumo, sem esperança e sozinha. Quero acreditar no bom que há que não vejo que existe. Estou cansada de me ser, queria ter forças para me combater e jorrar parte de mim, mas o tempo não age a meu favor e a memória corrói-me e cansa-me.
Nada sou para ti, nada valho. Sou apenas uma peça que emolduraste mas que escondeste da multidão. Nem tu queres saber as minhas cores ou lembrar-te de que modo sorrio.
O pior de tudo é já ter perdido a conta de quanto mal já me fizeste e ainda assim sentir-me tão perto e tu sempre tão distante.
O teu frio gela qualquer lugar e as tuas palavras nem todas juntas fazem sentido. És tão feio, tão feio, como podes ser assim? Como?
E mais importante de tudo, como posso eu permitir-me isto? Este estado em que fico quando eu só peço um abraço seguro? Não sei de mim, não consigo responder às minhas próprias perguntas e tudo é indiferente, sem importância, sem nada.
Sinto-me tão ridícula. Como se batesse vezes sem conta com a cabeça contra uma parede sem nunca aprender que a sua continuação me magoa e que deveria parar. As palavras que te quero dizer não saem porque infantilmente continuo a acreditar que vens, que me queres, tal qual como sou. Mas são só mentiras que tu me contas e nas quais eu acredito e acredito, vezes sem conta, sem questionar sequer.
Serei assim tão horrível para ti? Que há de errado comigo então? Saberás dizer-mo? Ou não sabes apenas lidar com alguém que realmente te oiça e respeite?
Talvez seja esse o problema e eu esteja apenas a interferir no meio das tuas conquistas... Não há palavras que descrevam como me sinto, quão suja me sinto. Mas mais ainda não haverão para te descrever, a ti e às tuas atitudes cobardes e maculadas, tão falsas quanto tudo o que aparentas.
Não sei já quem és. Nem tu próprio.
Procura-te porque nesse trabalho ninguém te poderá ajudar. Vai contando as pedras da calçada e vê quantas foram e quantas há por contar. Jogaste-me no meio delas de novo e é por lá que eu decidirei então ficar.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
A pressa do Esquecimento
Diz-se correndo, “o teu passo apressa o esquecimento” (Milan Kundera, 1995). Corre que nem um tolo. Cada passo é tão certo de si que se convence que a linha temporal está no chão que pisa e, portanto, a sua velocidade está intimamente ligada com esse processo de evasão da memória.
Considero-o tolo pois quanto mais quer esquecer mais se recorda porque está repetidamente a lembrar-se que se tem de esquecer. Perturbante.
Talvez só ocupando a mente com uma outra coisa o acalmasse, o fizesse pelo menos não ter tão presente a memória, ou então talvez devesse reconsiderá-la e percebê-la, a fim de conseguir esquecê-la por não ser já uma preocupação. Claro que, se possível.
Mas este tolo é como uma antiga chaminé cuja quantidade de fumo que dali sai é quase a todo o momento. Vive numa frustração e não será certamente um epicurista.
Foge da sua própria memória e quer correr no tempo.
Corre dos problemas embora caminhem e avancem todos consigo, ao mesmo tempo . Está condenado à sua mesma recordação, preso àquilo que ignora, pelo simples facto de saber que quer ignorar e, por isso, não ignora.
Infantilmente cometemos esta falha, como se a velocidade afastasse pensamento, mas não. Talvez apenas o êxtase da mesma. Tudo o resto apenas gera uma rebelião connosco mesmos e um turbilhão de sensações fervescentes.
A matemática até pode traduzir isto numa fórmula proporcional o que não quer dizer que seja realmente vencedora pois, como disse, o querer esquecer é o lembrar.
Faz então sentido que em todas as vezes que me quis esquecer não consegui. Nunca esqueci. O truque penso que esteja no aceitar a realidade de peito firme, ou não tão firme, mas aceitá-la porque o tempo, esse sim, leva a “aceitação” à rotina, à indiferença e ao esquecimento.
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