terça-feira, 14 de agosto de 2012

Incorpóreo

As palavras saem ao contrário, de pernas para o ar, ditas e malditas, proferidas sem sentido, à toa, são qualquer coisa, são coisa nenhuma, a minha sorte é o meu azar.
Canso-me de viver num rodopio do qual não saio. A minha insegurança é a minha morte e as palavras nunca me salvam. Sinto-me um pedaço de nada, perdido e abandonado que a ninguém faz jeito.
Predomina aqui qualquer coisa que desconheço, mas que é forte porque me mantém, apegada à mágoa e incapaz de a ultrapassar, de vencer as palavras e ser mais que elas.
É como decidir por fim espetar-me num muro de picos sobre os quais sei que doem mas não matam e não sou capaz.
Queria mudar-te, para melhor. Abrir-te os olhos e fazer-te ver que a vida tem tanta cor e olha para mim tão colorida. Mas teimas em cerrar os olhos e abraçar o teu dogmatismo até ao fim onde lugar para mim o não há. Devias acordar e ver que não sou o sol, mas também não sou a lua, sou um intermédio aceitável que recusas ver. Vês-me como algo cadavérico em decomposição, jazido.
Talvez estivesse melhor com um arco-íris e tu com uma cor só que exalte o pior de ti, como tanto aprecias. Sinto que sou demasiado fraca para estar contigo e vencer as tuas palavras maldosas, sou demasiado fraca para te conseguir abrir os olhos, para te fazer sentir algo nesse coração que deixou de bater há anos...
Um dia vais valorizar-me, acredito que sim, mas será demasiado tarde para utopias.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Peça Deslocada

Sinto o vocabulário redundante e cansativo. Caminhando numa direcção sem fim, sem rumo, sem intermediários, sem nada, caminha solitário.
Nem sempre são esses caminhos que mais ansiamos, aqueles pelos quais mais lutamos, mas são os necessários. Acredito ainda que nem sempre uma pequena alegria pode tapar o vazio que sinto, mesmo que esse vazio seja desde o início previsível. Talvez seja um problema de força, de coragem, de verdade, de entrega. Talvez seja um problema de uma coisa que é inata.
Faço de mim rio e sinto-me burlesca. Falo para comigo porque as vozes que em mim ecoam são apenas memórias. Falo comigo para me sentir viva e querida, para me consolar a mim mesma, para me dizer em murmúrio “vais ficar bem”.
Precisava de algo novo, de algo sincero, de um vocabulário que fosse um complemento do meu, que me entendesse e procurasse, que vivesse do meu querer e eu do dele. Mas na verdade tudo é uma contingência, tudo é aquilo que queremos que seja e esse querer é geral e não particular, é por isso que magoa quando nos desilude.
Posso parecer ridícula com todos os meus grandes testamentos, com  todos os meus livros, com toda a minha anti-socialidade, se é que tal existe, mas é tudo isto que me abarca quando me sinto só. Isto e só isto. Não há ninguém. Nunca ninguém percebe e eu também não faço disso assunto.
As pessoas próximas são como passarinhos que temos em casa, se abrirmos a janela eles podem voar para longe, para muito longe e nunca mais por nós serem vistos. Deixo os meus passarinhos voar porque também sou apenas uma peça deslocada dos mesmos. Sinto-me incompreendida e lá certo é quando alegam que nos fazem falta passarinhos que se assemelhem a nós. Talvez seja isso que tenho em falta. Talvez seja isso que me faça abrir a janela. Talvez seja isso que me deixe maribunda, falando comigo mesma por longas locuções estranhas a todos e intrínsecas para mim.
Pareço um bicho do mato que se esconde do mundo. Quer proteger-se, mas acaba sempre por ser descoberto. Não tenho soluções para mim mesma sem ser dizer-me que nem tudo é, como já disse, como queremos porque o mundo não se passa na nossa cabeça, mas fora dela. O tempo esse, que nos mata e consome, que tantas vezes é menor e maior, esse e só esse nos vai passando ao de leve a impressão de que algo voou em tempos, embora já nem me recorde se pássaro era. É o mais demorado, mas não há dúvida que é o mais eficaz.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Desencontros

É engraçado como dentro do baú tudo o que sai tem pó e um grande peso temporal.
Sinto saudades minhas, se é que é possível. De quem eu era, daquela rapariga particular que acreditava nas pessoas e podia até pensar de modo semelhante a tantas outras, mas era peculiar à sua maneira. Agora vejo alguém que pelo caminho deixou cair palavras e nunca ninguém as apanhou. Perdeu-se, perderam-na. Não sente, não se sente, não é sentida.
O seu toque é frio e a sua pele é pedra. Perdeu a cor e o brilho, só vê prosa, perdeu a rima.
A inspiração que a definia, que definia e diferenciava os mais próximos dos mais apartados. Usava a prosa para a desgraça e a poesia sempre para o sorriso.
Não sei quem escreveu as palavras do poema que encontrei perdido no baú. Sentia-o como algo distante ao ponto de ter a necessidade de relembrar, mas não o pensei tão inocente. Cada palavra era uma promessa, era um brilho no olhar de uma rapariga ingénua e menininha que não fazia a menor ideia de que as palavras magoam e as mentiras, pois bem, moldam o mundo. Não sabia que este eien teria a importância que se mostrou e que o erro nos emaranhasse e parecesse luz.
Ler as minhas palavras, ler as tuas. Já faz alguns anos. Não é que estejamos velhinhos, mas as palavras tornam-se velhas e os sentimentos também. Transformam-se. Acho que compreendo agora um filme que me incomodou tanto, talvez porque não queria aceitar a sua veracidade.
Às vezes, mesmo que realmente se sinta algo por alguém, com o nosso crescimento, também crescem os sentimentos e não quer isso dizer que não tenham sido verdadeiros, mas por vezes quando estes
 crescem, crescem em direcções opostas. Não creio que tenha sido esse o nosso principal impedimento, mas aquilo que me impede de acreditar é a sensação que tenho que nunca sei se é real ou fictícia, os teus indícios não são concretos e deixam-me sempre à borda de água.
Não te consigo escrever, mas tinha que me escrever a mim. É tempo de me acertar, de me encontrar sem saber como. Apesar de magoar, não vejo a minha ingenuidade como algo difamatório mas antes como algo puro e importante, raro.
Sei que as tuas antigas palavras não me pertencem, as atitudes mostram-no à luz do dia.
Queria não me inventar desculpas e ir à minha procura. Mas o fim é sempre o amanhã e enquanto este chega e não chega, a rapariguinha que talvez um dia qualquer te interessou, afasta-se, de ti e de mim. Vai para longe, desencontrar-se.

As nossas roupas estão apertadas demais, engordamos a nossa personalidade, resta saber se no sentido certo.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Longe

Queria-te em todos os lugares e mais algum, menos em mim.

Utopias

Queria evadir-me daqui para um lugar verdadeiro. Queria sentir que pertenço. Queria não ser demasiado ingénua, queria não acreditar. Queria ter um coração de pedra. Queria ser sem ser. Queria tornar-me num símbolo de força. Queria ser paz. Queria ser luz. Queria ser o que não consigo ser. Queria não ser o que me tornam. Queria ser querida. Queria ser dona do indizível. Queria não me afogar. Queria ser um barco de resgate e não resgatada. Queria ir sem vir. 
Queria que as minhas utopias fossem concretizáveis.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

"Por Isso Vem"

Nem toda a claridade é luz porque o claro por vezes é apenas uma pequena impressão que temos da imensidão da escuridão. As suposições nada mais são do que palavras engolidas pelo negro, pelo fundo e perdem-se no Nada.
O sentido deixa de o ser e dá lugar a tudo o que se lhe opõe, transforma-se naquilo que nunca foi. Curioso... poderemos também ser aquilo que não somos? Quiçá as encruzilhadas da vida não nos levam a fazer essa mudança que dissemos tão vigorosamente que nunca as faríamos. O nunca é como o sempre, são opostos que no fundo querem dizer a mesma coisa - não nos utilizes - porque as voltas que damos são mais que muitas e estas palavras nunca (cá está) viverão do seu verdadeiro sentido. São verdadeiras utopias, inconcretizáveis mas sonhadoras, promessas que sabemos que não sabemos realmente se alguma vez se haverão de cumprir, porém, dizêmo-las de qualquer forma. Saem simplesmente, com uma firmeza tal que se crêem como realizadas.
Na realidade o que me aflige são as palavras, são a minha dor, o meu tormento. Porque para mim  estas pequenas verdades são isso mesmo, pequenas verdades. Cabe aos seus utilizadores o seu bom ou mau uso. Aqui entra então o conflito porque por muitas expressões que pensemos, a priori, corresponderem a certas palavras têm compreendidas no seu interior as suas contradições. São as tais palavras que não se ouvem de início e que quando se fazem por ouvir querêmo-las mudas.
Por isso, mais do que qualquer outra coisa é uma dor psicológica que não passa, mantém-se cá para nos relembrar a sua existência.
Ainda vivo na utopia de que nem todo o claro é escuro, de que nem todas as palavras significam na maioria dos casos o seu oposto, de que nem todas as pessoas se refugiam numas por negação a si próprios. Vivem rebeldes com o seu interior, lutando para se encontrarem, para saberem que palavras vestem, para saberem que expressões são transparentes e o que querem passar de si próprios.
Talvez ainda viva também eu muito em rebelião comigo mesma, mas a minha transparência é clara e o meu uso de “pequenas verdades” tem o seu total sentido e não o contrário. Não me refugio em antíteses para esconder o medo. Mais vale admitirmos que a nossa carapaça não é de ferro é igual a todas as outras.  Julgo que seja esta a forma correcta e, por isso, nada mais é do que uma utopia que nem eu consigo sempre fazer jus à mesma. E porquê? Porque o sempre e o nunca são também utopias com as quais cometemos sempre o erro de as proferir e quebrar, atrevo-me a dizer que são promessas que são à partida quebradiças.

domingo, 18 de março de 2012

Com que palavras te vestes?

As palavras voam com as asas grandes que têm. Assumem as formas mais diversas e percorrem os caminhos mais encruzilhados, mais empalavrados, mais indefinidos, mais ou menos sábios, mais ou menos queridos. Sabem estar a qualquer momento sumptuosas, sempre que bem pronunciadas, e exaltam-se tal qual um pavão vaidoso, tão cheias de si, ostentadoras de verdades. Assim as queremos tomar, como verdades. Mas a Verdade como tão bem a sabemos também ela percorre um caminho denso e frívolo, ou não fosse ela própria uma palavra, de modo que dificilmente as distinguimos de todas as outras. Soam de igual forma, embora umas nos sejam mais próximas que outras. Por vezes nem tanto pelo seu significado, mas por quem as diz. Acho bastante engraçado a importância que os sentimentos têm em todas as coisas. Tudo depende disso mesmo.
Tenho um afecto particular por estas locuções voadoras tão certeiras, tão indispensáveis, até mesmo quando não assumem a sua forma original sabem transmitir-se de tantos outros modos.
Talvez seja por isso tão difícil receber aquelas que são proferidas singulares, frias, desacompanhadas, ditas para matar, para ferir. Uma vez expressada cá para fora não há como a colocar outra vez lá dentro, quanto muito, muda-se o discurso para algo ainda mais palavroso, construído por camadas de palavras, para que prevaleçam as de cima e não a da base, a que sustentou tudo aquilo que não deveria ter sido dito. É, portanto, um controlo que nem sempre temos, principalmente sobre aquelas que dizemos sem falar. Dessas poderá dizer-se que são as mais espontâneas e sinceras, porque são momentâneas, não são pensadas, dizem-se simplesmente porque é uma reacção a qualquer coisa e, como tal, agem primeiro que o próprio pensamento.
Contudo, nem todas elas se rodeiam de amigos que gostamos de ter por perto e por essa mesma razão, nem todos os encontros são bons. Nem todos vêm na altura que queremos porque estão por todo o lado e entram sem permissão. Umas ficam, outras dão lugar a novas e são as que ficam que nos moldam. É com essas palavras que nos definimos sem termos bem a noção de que as vestimos. É uma roupa de palavras. A grande questão que reina em todos nós e que queremos sempre saber mesmo que, no entando, nunca se obtenha a essência da pessoa, é levantada quando nos perguntamos interiormente “Com que palavras te vestes?”