domingo, 20 de junho de 2010

Marioneta

Estou presa por fios. Sinto tal e qual uma marioneta, cujos movimentos são feitos à vontade de outrem, seguindo  ordens que não as minhas, comandando um corpo alheio que é meu.
Apetece-me cortar os fios que me aprisionam para fatalmente cair sem nunca mais me erguer.
Mas não lhes chego, ou não lhes consigo realmente chegar porque a minha insignificância alia-se à cobardia e escondo-me por detrás da minha pequenez para desculpar a falta de aparência quando são horas de agir.
Tudo se afastou ou tudo afastei. Os meus passos são o único som audível. Ecoam desnorteados por entre frequências desacertadas e loucas.
Olho para trás. Quero ver pelo menos uma sombra, ouvir uma voz, ver uma mão para me agarrar e dizer que precisa de mim. Mas não há. E, por isso, afundo-me dentro do meu casulo e penso que mais escuro do que é estar cá dentro é estar lá fora. Pois todos os corpos são mutantes que me vêem como não sendo da sua mesma espécie. É como se houvesse algum problema com o meu cheiro natural por não ser equiparável ao de toda a gente.
Também eu me sinto estrangeira no mundo deles. Não temos as mesmas cores, não soamos da mesma forma e os meus passos embora descompassados quase que gritam por uma companhia num bailado popular.
Não encontro correspondência. E o fundo é infinito. A tona é fatal. Os monstros indiferentes.
Por isso,  sou uma marioneta. Respondo sem vontade própria e desfaço-me por entre a multidão.
 
Caio e ninguém vê.
 
Grito e ninguém ouve.
 
Morro e ninguém sabe.

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