Amo a música. Faço dela a minha voz interna, faço dela o meu ser. Preencho-me nesse todo e sinto-me como que evadida para uma outra dimensão incognoscível por todos, menos por mim. É o meu espaço, o meu mundo ao qual recorro numa loucura desvairada de me querer ser para mim e revelar-me só a mim, como se ali ninguém pudesse saber o meu nome nem me ver, onde a verdade seria uma constante e todas as coisas significariam. Nada é em vão e as palavras são tidas quase como uma decoração interior, a falta desses objectos ou o exagero, o Kitsch, faz diferença. É nessa realidade que eu me iludo. E talvez possa não ser o mais correcto, mas é o que me faz perdurar ainda a vontade de acordar num amanhã que terá de vir, pois o tempo é incontrolável.
A música tem este poder todo em mim. Talvez por essa mesma razão as pessoas me vejam feita louca quando me observam com aqueles olhares críticos e pejorativos, negros e dolorosos, falando sem palavras daquilo que não percebem. Falta sentimento a estas máquinas que se movem e coexistem segundo uma força qualquer superior que não entendo nem quero, tenho receio de ser também um deles.
A música traduz todas as minhas emoções, boas ou más. E eu sou com ela, sinto-me com ela, sou importante com ela, por ela e para ela. Ela é quase como o meu sentido orientador.
“Nós amamos a música porque se opõe ao silêncio.” É uma afirmação completamente válida e verdadeira. Todavia, não me é possível não me ser em cada melodia - a própria palavra já sugere um mundo externo aprazível - e não é que eu não goste do silêncio, às paredes confesso que amo a música porque tenho um medo astronómico do silêncio, daquilo que o mesmo me proporciona muitas vezes. Se a música para mim se resume a uma evasão minha para uma utopia que eu mesma criei, o silêncio destrói tudo isso e deixa-me como que num quarto escuro, sozinha com os meus pensamentos. E o pensar destrói-me, corrói-me, mostra-me a Fealdade, a realidade nua e crua e eu choro, mas as lágrimas não limpam atitudes nem saram feridas, não ajuízam as pessoas nem conseguem ser capazes de mudar nada. Acontece exactamente como acontece. A minha memória retém tudo isso e é no silêncio que tenho vergonha de ser uma pessoa, é no silêncio que me quero despir de mim, de tudo.
É no silêncio que eu abraço a realidade e morro no meu próprio leito.
É no silêncio que eu tenho medo e, por isso, embora me regozije nestes momentos de lucidez, temo-os. Parece mortífero, maligno, repudiável. É uma caverna sem luz.
É no silêncio.
P.S.: Sinto a minha escrita cansativa e repetida, quero escrever sobre tantas coisas e não sei como, parece que me faltam as palavras. Embora este texto ainda não esteja como eu o gostaria de escrever defendo, a meu ver, uma ideia muito forte que precisa de ser expressa.