segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Duas Realidades

É outro mundo, são dois momentos distintos que se anulam.
São outros pensamentos, são outras palavras, outros alinhamentos, diferentes (des)equilíbrios.
É uma outra atitude, numa outra rebelde e jovial maneira de estar.
São olhares penetrantes que mesmo observando a mesma coisa o mesmo não vêem. São outros tons vocais, são onomatopeias não estereotipadas.
São interesses que não se completam que, quanto muito, se opõem.
São diferentes. São duas realidades antagónicas.
É o concreto contra o abstracto.
O azeite com a água. Não se misturam.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Música vs Silêncio

Amo a música. Faço dela a minha voz interna, faço dela o meu ser. Preencho-me nesse todo e sinto-me como que evadida para uma outra dimensão incognoscível por todos, menos por mim. É o meu espaço, o meu mundo ao qual recorro numa loucura desvairada de me querer ser para mim e revelar-me só a mim, como se ali ninguém pudesse saber o meu nome nem me ver, onde a verdade seria uma constante e todas as coisas significariam. Nada é em vão e as palavras são tidas quase como uma decoração interior, a falta desses objectos ou o exagero, o Kitsch, faz diferença. É nessa realidade que eu me iludo. E talvez possa não ser o mais correcto, mas é o que me faz perdurar ainda a vontade de acordar num amanhã que terá de vir, pois o tempo é incontrolável.
A música tem este poder todo em mim. Talvez por essa mesma razão as pessoas me vejam feita louca quando me observam com aqueles olhares críticos e pejorativos, negros e dolorosos, falando sem palavras daquilo que não percebem. Falta sentimento a estas máquinas que se movem e coexistem segundo uma força qualquer superior que não entendo nem quero, tenho receio de ser também um deles.
A música traduz todas as minhas emoções, boas ou más. E eu sou com ela, sinto-me com ela, sou importante com ela, por ela e para ela. Ela é quase como o meu sentido orientador.
“Nós amamos a música porque se opõe ao silêncio.” É uma afirmação completamente válida e verdadeira. Todavia, não me é possível não me ser em cada melodia - a própria palavra já sugere um mundo externo aprazível - e não é que eu não goste do silêncio, às paredes confesso que amo a música porque tenho um medo astronómico do silêncio, daquilo que o mesmo me proporciona muitas vezes. Se a música para mim se resume a uma evasão minha para uma utopia que eu mesma criei, o silêncio destrói tudo isso e deixa-me como que num quarto escuro, sozinha com os meus pensamentos. E o pensar destrói-me, corrói-me, mostra-me a Fealdade, a realidade nua e crua e eu choro, mas as lágrimas não limpam atitudes nem saram feridas, não ajuízam as pessoas nem conseguem ser capazes de mudar nada. Acontece exactamente como acontece. A minha memória retém tudo isso e é no silêncio que tenho vergonha de ser uma pessoa, é no silêncio que me quero despir de mim, de tudo.
É no silêncio que eu abraço a realidade e morro no meu próprio leito.
É no silêncio que eu tenho medo e, por isso, embora me regozije nestes momentos de lucidez, temo-os. Parece mortífero, maligno, repudiável. É uma caverna sem luz.
É no silêncio.


P.S.: Sinto a minha escrita cansativa e repetida, quero escrever sobre tantas coisas e não sei como, parece que me faltam as palavras. Embora este texto ainda não esteja como eu o gostaria de escrever defendo, a meu ver, uma ideia muito forte que precisa de ser expressa.

Sopro do Vento

Tenho os pés gelados, já se sente o avizinhar de mais um Inverno. O vento sopra lá fora, gritando e afugentando enraivecido os males do mundo – as pessoas. Se pudesse, soprava com ele.
Sopra também à minha janela procurando afastar-me mais para onde eu não sei, para onde não caibo nem lugar tenho.
Se lhe contasse um segredo sei bem que ele não o manteria sobre esse mesmo estatuto, mas eu sentir-me-ia tão mais aliviada se ele me ouvisse. A verdade é que nem sei o que lhe dizer nem contar. Queria contar tanto de mim e não consigo. Fui-me perdendo por entre densas entregas e, de mim, já pouco detenho.
Estou que nem um puzzle de mil peças com apenas duas montadas. Todas as minhas peças parecem incompatíveis umas com as outras, díspares e confusas sem nada que as ligue entre si nem elas a mim.
Pergunto ao vento por mim numa atitude já saturada de me ser, mas ele apenas sopra. Sopra louco, desvairado, forte e imponente. Sopra porque sou também pedaço de carne maligna e pecadora. Sou também pessoa. Pessoa que ele quer afastar, mas desta vez, para eu não mais a mim mesma afectar.

sábado, 23 de outubro de 2010

Perdida de Mim

As paredes parecem começar a degradar-se, as portas parece que derretem, o chão ganha uma textura algo estranha que me desconforta e eu, que faço também parte deste ambiente, cai com todo ele. É o meu degredo.
Grito em silêncio por entre estas paredes já moucas e procuro consertá-las a todo o custo. Vejo esta construção tão imponente em tempos apresentar-se agora tão caótica. É uma memória e ela quer ser um Nada. Eu colo cacos, seguro com pés e mãos tudo para que tudo assim se mantenha, mas nada parece resultar.
Tudo vai caindo, desfalecendo a pouco e pouco… e eu com eles. Estou quase à altura do chão. Toda a sumptuosidade é agora irrelevante, inacessível, deixou de o ser. É apenas triste.
Estou caída e não tenciono levantar-me. Parece que quero afogar-me na minha memória e perder-me no meio das sensações, esquecida do mundo, perdida de mim.


repito para mim baixinho infantil e estupidamente: volta.

sábado, 16 de outubro de 2010

Desfecho de Mais Um Capítulo

Sinto-me esquizofrénica.
Desde que o meu lado irracional naufragou em alto mar, o meu lado racional declarou-lhe guerra. Uma guerra impiedosa e sangrenta que faz de mim um ser de personalidade dupla.
Há tanto que o esperava, há tanto que pensava que seria o melhor e, agora que o vento sopra fraco e que as terras desconhecidas me chamam e parecem tão tentadoras, quero continuar na minha canoa a remar com um só remo feita louca, presa na minha própria memória, na minha própria ilusão.
Se por um lado quero incessantemente discernir o certo do errado, por outro de nada quero saber, quero apenas voltar atrás e prolongar o último beijo.
Sim, o último beijo. Porque foi tão incipiente e eu não sabia que era o último. Foi tão incompleto e inacabado...
O último abraço, que já tanto tempo faz.
O último sorriso que lhe mostrei… que nem me lembro…
A minha canoa naufragou há já muito tempo e eu não dei conta ou não quis. Ainda não me conformei, mas tenho que aceitar a realidade e não posso viver um passado que nem existiu realmente da forma como eu penso que o recordo.
Vou só guardar o teu sabor.
Porque apesar de tudo... foste a pessoa que mais amei.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Ilumina-me

Está escuro. Tudo parece desacreditado, inacessível, insaciado.
Falta-me luz e o amanhã soa a pesadelo. Tenho medo das palavras. Porque são as palavras mais do que armas mortais, mais do que espadas grotescamente aguçadas. São tudo aquilo em que ingenuamente acredito e me perco e me sacio. São o meu degredo. O meu erro. A minha incompatibilidade com o acto fugaz e repreensível de sonhar.
Porque o sonho não passará – nunca – do inconcretizável, das utopias vendidas, do sem lugar.
Queria ser iluminada, preciso de me prender sem arrependimento nem retrocesso.
Escasseia-se-me já a vontade e a coragem, toma-lhes lugar a cobardia e o vazio. É com insignificância que me sinto e a com que me não sinto aquando estou rodeada por uma multidão que esvoaça luzes no ar para iluminar o palco apagado mas tão presenciado.
E eu, que me encontro no meio de tantos e apercebida por nenhum, vou repetindo para mim em silêncio, querendo crer no incrédulo: "Ilumina-me enquanto não há amanhã". 

P.S.: Escrevi após ter assistido a um concerto de Pedro Abrunhosa. Depois de ouvir pela primeira vez a música "Ilumina-me" não lhe pude, de forma alguma, ser indiferente. É muito bonita, embora o facto de não conseguir acreditar na mesma me entristeça.


quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O Preço das Palavras

Quanto custam as palavras? Serão caras? Haverá palavras em segunda ou terceira mão dispostas a serem vendidas em leilão? E de que modo se comportam as tão bem conhecidas adopções de locuções sendo quanto maior a idade, maior o seu desuso e menor a sua aderência?
Claro está, que nesta tabela de preços existe uma fiel hierarquia que se pressupõe como regra, mas há já tantas que do cimo da pirâmide são vendidas e proferidas ao preço da água...
O que é feito da invenção das palavras? Daquilo que sentimos e inventamos por meio de neopalavras aquilo que ainda não teve lugar? Que só existe enquanto ideia ou sensação e criamos enquanto palavra? Pessoalmente, admito que tenho o vício, um tanto singular, de rotular todas as minhas pequenas grandes invenções e não as vendo - nunca -, só as ofereço a quem as faz por merecer. 
Todavia, com a crise e com o aumento do IVA, depreendo que o preço das palavras  tenha acrescido abusivamente contanto que se tornou difícil, para muitos, recorrer às mesmas.
Há palavras que são apenas demasiado dispendiosas para serem proferidas... ou isso ou eu não dei conta que retrocedemos a um regime ditatorial onde a liberdade de expressão é inexistente, onde as palavras mais sentidas equivalem a penas de morte imediatas.

Não encontro mais nenhuma razão para justificar o porquê de tu não mas dizeres.