sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Opismo

És o meu ópio. E eu queria tirar-te de mim. Pensei que por falar as palavras fossem o mais alto, me aliviassem e que me não fizessem sentir desnorteada, perdida, num fervilhar emocional que já não devia sentir.
Queria muito  viver o ‘fairytale’, mas o meu querer é tão intenso que deturpa a realidade em função do mesmo. Eu não estou a vivê-lo, nem o vou viver. Digo-me inúmeras vezes, queria gritar-me para ver se me entra!
- “Ama-te!” – digo-me. Digo-me, mas não me oiço. É sempre aquele pensamento que me não deixa dormir, como se numa outra realidade tivesses sido o meu salvador, como se viesses com uma acção inimaginável e nunca de desistência, dizendo que me querias e não descansarias até o conseguires por tudo aquilo que eu era… que ilusão.
Estou tão confusa, queria tanto viver este sonho irreal. Porque ainda vives em mim, dei-te de mim como nunca antes a ninguém.
Talvez o melhor seja mesmo esperar sete meses para nunca mais te ver, talvez aí desapareças e eu te esqueça.  Não sei se é por seres orgulhoso demais ou por não me quereres assim tanto ao ponto de lutares então não vale a pena ocupares a minha imaginação.
Fizeste-me fraca. Rendo-me ao primeiro olhar e agora “moro do rés-do-chão do pensamento.” Opiário, Álvaro de Campos.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Rosa Para Mim

Sim são, são mais as palavras do que aquilo que eu sei dizer de mim. Que sejam conversas com um só interlocutor, que o sejam. O tempo corre por mim e percorre-me, ultrapassa-me e mostra-me o quão fugaz é. Talvez não me tenha apercebido que as palavras são sempre queridas enquanto puderem ser tornadas audíveis pois o mudo mata-me por dentro.
Se o olhar falasse talvez eu não me desfizesse e ouvisse. Mas o olhar apenas me faz crer num "se" que nunca mais poderei tomar como verdadeiro. E distaram progressiva e dolorosamente as palavras e assim se vai distando o teu olhar. Está já tão vazio, tão longe de tudo, de nós, do mundo, de ti.
Os teus olhos grandes vêem tanta coisa e parecem tão perdidos. Dei-te a mão para saberes que é seguro, mas tu não reagiste. Olhaste-me tão intensamente que talvez me tenhas visto por dentro, ou fizeste um esforço sobrenatural para saberes quem eu era, ou simplesmente olhaste no vazio. Isto tudo fez-me lembrar-te e perceber que serias o meu primeiro tópico desta minha escrita já tão enferrujada. Lembrei-me e lembro-me do quão presente sempre me foste mesmo quando o não vi. Mulher palavrosa no sentido de seres mesmo cheia de palavras. Palavras gordas daquelas um tanto ou quanto baralhadas e algumas dispensáveis, mas sempre gordas. Nunca nada ficou por dizer. Talvez saia a ti ou não fosse eu mesma, tal como tu, palavrosa, com tantas elas baralhadas e tantas outras dispensáveis.
É bom lembrar-me de ti e pensar que o tempo que te roeu nos rói também por não te poder sentir receptiva. Queria mostrar-te como cresci, queria tanto dar-te aquele abraço infindável antes da última palavra. A última palavra. Foi tão louca, tão insignificante, tão fugaz e submissa, mas tão tua. Uma daquelas que nunca guardavas debaixo da língua e disseste sempre tudo até mais não poderes.
Sinto a tua falta como nunca pensei que fosse sentir. Sentimos todos e nem sei se sabes o quanto.
Sei aceitar muita coisa, mas custa-me tanto aceitar-te assim. Aceitar que isto és tu no agora e depois e nunca mais como antes.
És como uma pura, linda e inesquecível Rosa para mim, uma das melhores plantações do meu jardim.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Nada Quero

Talvez seja do calor, ou antes da falta dele. Como se tivesse secado as lembranças que residiam numa velha caixa de madeira empoeirada e com tão pouco já para nos dizer.
Não que escondesse segredos ou que fosse ela tudo mais que alguma coisa, mas era tão somente aquela caixinha de memórias que guardei com carinho até dela mesma me esquecer.
É como se fosse em tempos uma cascata onde simplesmente a água parou de cair quando o tempo tudo secou.
Choveu há dias. A cascata com pouca água corre, mas corre com uma outra corrente. Não sabe para onde vai, nem tão pouco sabe porque vai, apenas segue o seu percurso como se nada a ninguém devesse, como se corresse porque também o parar de nada serve e assim talvez conheça um campo ainda não conhecido.
E as lembranças? Quem as lembras? As memórias? As memórias nada mais são do que algo que me empoeirou e me cegou os olhos, que me fez os ouvidos moucos e das minhas palavras alterações sintácticas. Não quero as memórias, quero o sem rumo. Quero o que nunca quis. Não quero. Quero o que não quero.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Arrancar-te de mim

Continuo sem conseguir formar frases, mesmo a minha junção de palavras parece desabitada, há sempre elementos em falta ou sem ligação.
Atrevo-me a dizer que ainda choro num mar não respondido nem correspondido, dolente e rebelde, revolto. Caminha na minha direcção oposta e vem contra mim, com um sede de me querer limpar a face imunda de pensamentos pecadores e dizer-me tudo aquilo que sei, mas que não quero ouvir.
Se pudesse, se pudesse, arrancava-o de dentro de mim, com as minhas próprias mãos, deixando escorrer o sangue que algum dia te marcou de alguma forma em mim. Peso morto, queria-te assim para mim. Queria ver-te sem interesse, queria que tu seguisses e fosses feliz sem mim e sem me importar, queria eu ser sem te carregar ao peito.
Larga-me. Desespero.
Não sei que fazer. Fazes de propósito para te não esquecer.
E eu, que ingenuamente em tudo e todos acredito, também a ti não te consigo não falar quanto mais não te sentir.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Grito Mudo

É uma convulsão de sentimentos, queria tanto o descanso quanto a paz, quanto a decência e a paciência, quanto o ânimo e a vontade que me faltam.
Sinto-me incapaz de seguir um caminho que me mostre a rectidão de uma certeza e que me diga que é aquele e não outro. A minha cabeça explode de decisões que me consomem e me fazem sentir frágil e pequena. Queria tanto não pensar.
E se por um minuto resolvesse tudo durante um sonho que eu controlaria a meu bel-prazer. Talvez então não tivesse o mesmo interesse pela ausência de dificuldade, mas seria tão mais acessível e, só por um momento, me tiraria algum cansaço que já se vai avizinhando.
As palavras são como as decisões, vaivéns infinitos e incontroláveis, dependo delas e elas não dependem de mim. Uma injúria à qual cedo sem reclamar porque já a sei como incontestável.
Não, não é nada por ser algo, nem se passa nada que tenha de ser alguma coisa, é só mesmo um grito mudo que faço por meio de palavras. Elas gritam-me sem ninguém saber e é só deste meu grito que eu careço. 

E, mais uma vez, gritaram.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Memórias

Apaguei as memórias para não pensar, para não chorar, para ser mais que tu e eu, para já não mais contigo me relacionar.
Mas a impossibilidade de te apagar na tua totalidade me não deixa continuar um caminho recto, deturpa tudo aquilo que vejo e acredito e confunde-me, vejo tudo nublado, turvo, incompleto. Não sei como me sinto, sei que preferia não me sentir, não fazer de ti meu sal.
Quando me vais deixar? Como é possível? Diz-me como porque eu já o não sei dizer por palavras. Desaprendi. Desaprendi-me. Fui algures contigo e lá me perdi, lá fiquei e tu não me devolveste.
Uso uma máscara só para pensares que sorrio. Sei que mudei e até ouso dizer que me fortaleci por tudo o que já passei posso dizer que as palavras que oiço me não importam porque tomo-as à partida como: não sinceras.
Não sou mais um fantasma que te atormenta sem comunicar contigo. Sou apenas alguém que não deixas seguir, curar-se, apaixonar-se de novo pelas cores da vida.
Larga-me. Deixa de te ser em mim. Eu apaguei-te, como é que ousaste desenhar-te em mim de novo? Ainda que num esboço mal feito, quem te ordenou? Fui eu, só eu! Culpada! foge e arrepende-te de te envergonhares a ti própria. Sim, tu sem auto-estima, pessoa despida de si própria, que vendeu amor ao preço de nada.
Ainda te quero recordar. Não percebo esta minha vontade. Sou estúpida, não terei outro nome senão esse. Sou idiota, iludida, sou tudo aquilo que se ridicularize. Talvez ainda não tenha sido suficiente tudo aquilo que passei.
Quero lembrar-me de ti, mas apaguei tudo aquilo que me fazia visualizar-nos, menos a minha memória que, infelizmente, me lembra constantemente de ti, de nós, de tudo, do meu estado parvo aquando infantilmente sorria dezasseis vezes sem cessar sempre que apenas a tua mão acalmava a minha e o teu olhar - que se fingia terno - me dizia falsidades como “é seguro”.
Vivemos numa relação em relações diferentes, não complementares: estávamos os dois perdidamente apaixonados por ti.

domingo, 29 de maio de 2011

Vento

Sopra vento, sopra. Sopra as palavras sem enchimento que poisam desnorteadas no reino do Esquecimento. Sopra o que foi e o que não será. Sopra tudo.
Limpa as impurezas e faz-me não ouvir. Sopra vento se a mim sempre sopraste, se tudo sempre foi tão leve como o pó. Então sopra e deixa-me desamparada.
Sopra porque enquanto soprares sempre tens ocupação e eu de ti já tudo isso espero, não consegues desiludir-me mais porque fechei os olhos que já não mais querem abrir por ti.
Vento invejoso que queres ocupar-te de todo o imatérico do qual dependo, queres arrancar o que em mim já não existe, o que tu levaste num sopro fugaz e cruel, irrequieto e impiedoso, tão insensível e pecador.
Sopra vento, sopra. Eu sei que tudo o que por ti passa é mutável, sopra as expressões, sopra o que me construiu um dia, sopra a minha memória, sopra as palavras que nunca me pertenceram. Sopra. Tudo é teu lugar.
Sopra vento, sopra como nunca sopraste.