quinta-feira, 15 de maio de 2008

Luto


Vesti luto.
O negro que há tanto tempo me apaziguava de tão tenebroso que era, assenta-me agora que nem uma luva. As coisas que me eram tão próximas são-me agora tão distantes.
Estou de luto.
Estou de luto para com a vida que se esqueceu de mim, e já nem forças tenho para não fraquejar.
Sinto-me fraca, estou fraca e sei que fui forte.
Sinto agora a chuva a bater-se-me no rosto e a confundir-se com a lágrima que estimula este meu estado espírito. Sonho com um vencer que é tanto ou ainda menos possível que o alcançar do horizonte. Desiludo-me, fico incapacitada de compreender, de ouvir, de falar, de reagir… E refugio-me no negro da alma.
Que importa quanta gente me rodeia se sinto que a mim ninguém vê, nem sente ou ouve?
Que importa falar se me cozeram a boca com pedaços de linha incolor encontrados nos confins do submundo?
De que me serve uma nova atitude, se sei que não a terei e que serei só eu em pensamento?
De que me serve lutar pela alma que já perdi, quando não sei onde ela pára, nem por onde deambula, nem sei já mais quem ela é ou foi?
Deixei-me seduzir por uma felicidade aparente e esqueci-me do sentido da vida.
Parece que ainda a sinto a escorregar-me das mãos, como se líquida fosse para que, sendo algo não palpável, nunca a pudesse agarrar.
Tentei substituir o mal por bem quando o bem era o mal e o mal o bem.
Desisti.
Contudo esta desistência não é para abdicar da vida, mas apenas para não viver com ela, mas sim lado a lado com ela, para que se não misturem.
E para nos distinguirmos eu visto luto. E assim será até eu aguardar julgamento no purgatório…


SAVE FROM THE NOTHING I’VE BECOME
BRING ME TO LIFE!

E pensar que a vida já foi tão cor-de-rosa na idade da pura inocência por não ver para além das máscaras, por não julgar ainda atitudes, por não ter ainda uma opinião sólida, concisa e determinada acerca das coisas, acerca da vida.
E, por isso, a realidade nua e crua veste um disfarce que na verdade não lhe serve, mas que nas mentalidades insípidas não há nada que lhe assente melhor.
E quando a fruta do pecado amadurece e está preparada para a qualquer momento ser colhida e comida por um pecador, é que desce dos céus do imaginário e enfrenta o único mundo existente na realidade. Mundo esse que está sempre preparado a atacar e à vanguarda, o mundo terreno.

Sem comentários: