sexta-feira, 6 de maio de 2011

Inspired by Poetry Slam

Foi-se.
Foi-se como algo que balança ao som da música que é leve e que domina o ar todo e o som, que me domina a mim e a tudo, que me sê. Que me pára a sede e me lembra, que me fortalece e me acompanha, que de algum modo me diz e não diz o que as palavras o não sabem. E os gestos.. os gestos circundam o incompleto e ficam ainda um tanto ou quanto por comunicar, por se exprimir, por dizer ao mundo que a vida é tão simplesmente o finito do impossível e o infinito do possível.
Pareceu-me ouvir dizer que o sol sempre aquece até mesmo quando se esconde, que o esconderijo do encoberto está mais visível do que aquilo que se pensa. E que o pensamento nada mais é do que uma dor que nos acompanha e que nos faz ser. Ser como somos, ser qualquer coisa, que não diste do tudo, que não se aproxime do Nada. Que nada se aproxime, quero tudo tudo longe, longe daqui. Porque o melhor som é o silêncio e os sentidos que me enganam já os sinto como algo preto, escuro, cavernal. Carnaval. Uma loucura de máscaras, de utopias, de sonhos não vividos, de vidas não sonhadas, de vontades. Impera a vontade.
Fá-la voz que se oiça, sentido que se sinta e se não engane.
Não desistas.

P.S.: Ontem tive o prazer de ir a Pecha Kucha e foi de facto muito inspirador. Não pude ser indiferente ao "poetry slam", que foram os que abriram o serão. Declamaram um poema muito expressivo e emotivo que me enriqueceu bastante pois eu gosto de escrever conforme me surge, conforme me sinto e tudo isto são uma amálgama de sons e palavras que se unem e vivem dessa união contraditória ou não, assumem a sua existência e foi lindo. Aconselho. O título do texto honra a noite de ontem.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Luva Branca

Não é um dizer que sim ou que não. Nem tão um pouco um gesto descontrolado que nos escapa. Chame-se-lhe acaso. Chama-se-lhe o que for, o que queiramos que seja.
Eu chamo-lhe a ironia do fado. Chamo-lhe as palavras que se me agridem como estalos de luva branca. Chamo-lhe vocábulos em mares revoltos lutando contra aquilo que alego. Chamo-lhe guerra.
Chamo-lhe perdição. Chamo-lhe loucura.

Encontro-me um tanto ou quanto desarmada, despalavrada, não me rendo, mas faço silêncio.

terça-feira, 19 de abril de 2011

O Porquê

Porque é que não cantam as flores do meu jardim?
Nem balançam as ondas do mar meu?
Porque é que o meu sorriso assim
Não contagia o teu?

Porque é que o verde não seduz
Quando a sua cor em mim se inunda?
Porque é que te não retém
Quanto muito te afunda?
   
Os pássaros ensaiam uma canção qualquer
E enamoram-me no meu jardim,
Nada tem de particular
Cantam apenas para mim

Para ti também cantariam
Se fosses da mesma canção,
Cantas-me tu uma tua
Sem saber ou intenção.

Cantas porque as tuas palavras na boca não cabem
E eu sou apenas a acessibilidade ao sensível.
Não quero mais ouvir de ti
Passei-te de nível.

E sim, talvez um dia acorde e pare de viver este meu sonho cor-de-rosa
Ou talvez um dia alguém responda
À minha simples prece
E me segure a mão com determinação,
E me diga que é seguro,
E me diga o mais-que-tudo,
E mais ainda: que ao dizê-lo,
O sinta.



* its not about saying what you're feeling, it's about feeling what your're saying

domingo, 10 de abril de 2011

Carta

Queria não falar. Queria somente fugir. De rosto escondido ou sem ele, cabelos emaranhados que me não deixam desprender desta corrupção.
Se as minhas palavras são água então deixem-me fugir com elas. Para lá, para longe, para o meu lugar.
Deixem-me ficar, deixem-me cantar e enamorar-me comigo mesma, feita louca correndo em círculos, procurando incessantemente parecer sã.
Estou farta de ouvir e que me seja imposta a premissa que me sela os lábios, tal qual um envelope que contém um meio de comunicação, mas que o não deixa comunicar, come-o, retém-no dentro de si mesmo.
Quero enviar a minha carta, é bem grande e apela a tão pouco.
Mas o meu selo também já não me corresponde e antes de ser selada já tenho a leve sensação que nunca serei lida(entendida).
Como eu queria ser lida. Como eu queria poder querer. Poder falar sem tudo ser alvo de profanidades.
Diz-me o que ganhas em fazer de mim fraca. Eu, sangue do teu sangue, que ganhas tu?
Afastamento? Os dias passam mais rápido do que nós damos conta e um dia, quando menos esperares, a minha carta não estará mais atafulhada no meio de tantas outras que nunca ousaste abrir. Não. Um dia, mudarei eu mesma o meu selo e serei aberta, lida e relida, guardada e estimada, algures no meio de um entendimento inexpressável, mas compreensível… algures, num outro lugar qualquer, menos aqui.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Canção do Mundo


Tem sido tão difícil escrever. Preciso de mais palavras. Talvez me dedique agora a uma outra língua, pois embora as palavras o mesmo queiram dizer, há toda uma nova linha de importâncias desde a sua sonoridade à forma como estas se apresentam e se relacionam com todas as outras que as rodeiam. É interessante ver quantas línguas nos cantam, quantas são frias, quantas são simplesmente carregadas, quantas são alegres, quantas são complexas, quanto são bonitas. Quem me dera saber falar todas as línguas. Talvez fizesse então um texto que seria também uma aproximação a algo melódico e metódico no sentido de construir com cada palavra de diferentes dialectos um som particular. Nem é preciso significar algo, porque as palavras significam sempre inúmeras concepções, fiquemos apenas pelo som, pela harmonia que estas possam ter.
Seria a canção do mundo. Eram as palavras notas e a voz o instrumento. Fariam desta harmonia o meu poliglótico alento.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Três

Três vezes.
Contei até três.
Disse três vezes que não eras tu.
Disse-me três vezes que não sentia.
Saltei três vezes e disse três palavras.
Tentámos três vezes, tivemos mais de três momentos e aos três não chegou.
Cantei três vezes, tentei esquecer-te num tal dia três.
Comi três coisas com sabores ambíguos numa tentativa incessante, e um tanto ou quanto risível, de te não pensar.
Fui três coisas.
Tentei agir para contigo de três formas diferentes e nenhuma delas conseguiu nomear-se como vencedora.
És as três palavras que eu não quero dizer.
Fujo ao número três que me desilude. Fujo-lhe, como-o, esmago-o.
Talvez o número dois seja o número Perfeito porque três pessoas dá um caso bicudo.
Pensei que o número três fosse o número da Perfeição. Percebo agora que é para mim tão imperfeito quanto todos os outros números, falaciosos e irresolúveis.
Nenhum nos serve.
Tenho que deixar de tentar encaixar as três peças de um único puzzle que não têm qualquer encaixe possível. São talvez de um outro puzzle… com mais de três peças.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Hoje Brilho

Tenho a minha casa toda iluminada, o sol brilha tão radiante, não consigo não sorrir. Sou consoante o dia, brilho com ele ou sou toda uma névoa quando se pinta de cinzento e até consigo chover, embora a minha precipitação não partilhe o mesmo símbolo químico.
É nestes dias que sou capaz de correr feita louca, verde, clara, tão aberta e sensível, tão sorridente e carente. Preciso deste brilho que me abre o rosto, que me ilumina e me lembra de me ser. Lembra-me que a vida está repleta de um belo natural que eu amo e é recíproco. Sou capaz de me entregar completamente a estes dias, que levem tudo de mim, eu sou-me tanto neles.
É a corda à qual me agarro firmemente para não cair neste mundo corrompido. É a que me prende também a ela. Há coisas inexplicavelmente afáveis e mesmo sendo banais o não são porque existem e existem por uma razão que nos é distante. Tudo tem uma razão de ser e a Razão da Natureza, que tão pouco dela conhecemos, é linda em toda a sua forma, conceito e expressão pelo simples facto de fazer tanto sentido e pelo porquê desse sentido desconhecermos. Talvez seja isso que a torne tão especial. Ela é o completo, nós somos apenas a metade.
 
Hoje não consigo não brilhar :) sou tua súbdita, guia-me por favor.