quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A pressa do Esquecimento

Diz-se correndo, “o teu passo apressa o esquecimento” (Milan Kundera, 1995). Corre que nem um tolo. Cada passo é tão certo de si que se convence que a linha temporal está no chão que pisa e, portanto, a sua velocidade está intimamente ligada com esse processo de evasão da memória.
Considero-o tolo pois quanto mais quer esquecer mais se recorda porque está repetidamente a lembrar-se que se tem de esquecer. Perturbante.
Talvez só ocupando a mente com uma outra coisa o acalmasse, o fizesse pelo menos não ter tão presente a memória, ou então talvez devesse reconsiderá-la e percebê-la, a fim de conseguir esquecê-la por não ser já uma preocupação. Claro que, se possível.
Mas este tolo é como uma antiga chaminé cuja quantidade de fumo que dali sai é quase a todo o momento. Vive numa frustração e não será certamente um epicurista.
Foge da sua própria memória e quer correr no tempo.
Corre dos problemas embora caminhem e avancem todos consigo, ao mesmo tempo . Está condenado à sua mesma recordação, preso àquilo que ignora, pelo simples facto de saber que quer ignorar e, por isso, não ignora.
Infantilmente cometemos esta falha, como se a velocidade afastasse pensamento, mas não. Talvez apenas o êxtase da mesma. Tudo o resto apenas gera uma rebelião connosco mesmos e um turbilhão de sensações fervescentes.
A matemática até pode traduzir isto numa fórmula proporcional o que não quer dizer que seja realmente vencedora pois, como disse, o querer esquecer é o lembrar.
Faz então sentido que em todas as vezes que me quis esquecer não consegui. Nunca esqueci. O truque penso que esteja no aceitar a realidade de peito firme, ou não tão firme, mas aceitá-la porque o tempo, esse sim, leva a “aceitação” à rotina, à indiferença e ao esquecimento.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Imagens

As imagens nem sempre são o que parecem e a sua lucidez é por vezes o menos lúcido, o enevoado, o incompleto, o por mostrar.
São um segredo.  Um segredo que não sabemos, mas que o temos guardado, não sabemos bem em que gaveta, nem tão pouco que tipo de chave se é que existe. De nada se sabe. É como se nem sequer lá estivesse. O pensar deturpa as imagens e mistura-as, confundindo-nos as sensações, confundindo-nos os sentimentos.
A verdade afasta-se tanto quanto se aproxima a mentira. Tão sumptuosa, tão certa de si mesma, tão falsamente credível. É difícil saber pelo que não optar, é difícil ter uma certeza e ser essa mesma certeza o mais certo para se fazer.
Como se pode distinguir tal coisa? Por que é que não pode ser simplesmente acessível?
As promessas são apenas uma invenção quebrável, não sincera e não suprível. São como algumas palavras, ditas por quem não sabe o que valem.
Enevoadas como as imagens, invadem-se, escondem-se e mostram-se, confunde-se o real com o irreal e eu confundo-me com a imaginação que crio... não sei em que acreditar.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Problema de Expressão

Por breves momento respirei. Inalei um ar puro destemido, exuberante, tão natural e respirável. Não tinha quaisquer impurezas. Era forte, capacitado e detinha sobretudo o poder de se Ser. Poder importante que nem todos o conseguem atingir ou descobrir. Encontra-se sempre coberto por entre muitas outras substâncias que ninguém nunca sabe muito bem o que são, mas sabe-se que existem, diz-se que. Diz-se muita coisa. E realmente por vezes o problema passa mesmo pelo dizer. Pelo que se diz e pelo que não é dito, como disse, o problema é de facto um problema de expressão. Não um qualquer. Denote-se que a expressão é tão infinita quanto o horizonte e, portanto, quero apenas limitar-me entre o correcto e o incorrecto. Isto é, por entre tanta liberdade de expressão proferem-se coisas várias e outras tantas ficam por dizer, sendo essas as mais importantes de se tornarem audíveis. Claro que este problema não é geral, mas eu sinto-o relativamente a muita gente. E, claro está, que associada à palavra expressão está o veredicto da coisa.
Não me vou ocupar com este tema que tanto batalho, mas é realmente estranho como tanta gente se exprime e, ao mesmo tempo, sofre de falta de expressão. Também não devia ser minha ocupação tentar perceber os comportamentos que sinto como alienígenas. Deixa-los-ei estar, talvez um outro dia, com umas outras palavras, exprimirei o contrário ao meu pensamento. Se tal acontecer, as minhas palavras nada mais valerão, terei ficado doente, apática, sem expressão.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Música

Passaram dias e dias. Passou um ano inteiro e a música que te descreve continua a mesma. A mesma composição, o mesmo ritmo, cada verso…
Devia ser passado, devia ser qualquer coisa que se desvia, que passa ao lado, que não me atinge, mas antes pelo contrário, fere-me como se fosse ontem. Como se as palavras para ti fossem só qualquer coisa que a tua boca sabe exprimir, mas que nem sabes bem o porquê nem o que querem dizer. Simplesmente dizes porque é do momento, qualquer coisa que se adequa, que fica bem. Pensei que de sinceridade vivesse o mundo, mas é o contrário. Desta  ele
mingua. A força está na mentira e todos se cobrem dela porque por alguma razão que não entendo se acham felizes por viverem encavernados, sem luz, nem paz, nem amor.
Amor. Palavra tão aguada, tão solta, tão comum e tão difícil de encontrar a sua verdadeira acepção. Klee afirma que “a arte não produz o visível, mas torna-o visível”. Eu alego que o amor é mais visível quando invisível. É qualquer coisa de inconstante que não se pensa. Ou é ou não é. E quem a sente, sabe-lo. Não precisa de o tornar visível porque já o é.
Julgo-me estrangeira e chamam-me tão vulgar. Todos dizem que o sistema é verdadeiro, mas é na realidade uma falácia que ninguém se apercebe. Estarei sozinha?

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Single Word

I lost the track of time
Somewhere I lost myself
Everything seems what it is not
I want to believe but cannot

You are everywhere I go and you look like Spring
But deep in inside it looks very Winter to me
I cannot ask for what you do not have
I cannot have what you cannot give

Maybe, just maybe,
We are both lost and stuck in something we try to fix
But is not worth it.
And maybe, just maybe,
We are not the ones who need to be fixed
Maybe “we” is just a “you and I”
That should never have become a single word.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Momentos

São momentos. São dias. São determinados apetites insatisfeitos e melancólicos que já trazem o cheiro de uma nostalgia que nos prende e que nos não quer largar.
O mundo é tão grande, tão grande e eu sou tão pequena.
Às vezes oiço o vento e canto sozinha só para me ouvir e não me sentir desacompanhada mesmo quando só quero estar comigo.
E sim, lembraste? Lembro-me de tanta coisa, de tanta coisa que ficou a pairar na minha imaginação e outras tantas que ficaram estagnadas no patamar do indizível querendo soltar-se, mas sempre com renitência.
Oiço uma música que vem de dentro e faz-me render-se-lhe. Entrego-me e deixo-a guiar-me, parece saber bem mais que eu. Esqueço-me do momento e penso nostálgica naquilo que passou e em todas as coisas que são tanto para além de mim.
Lembro-me que o tempo passa de rasgão e acena-nos depois com um sorriso nos lábios como se soubesse a falta que nos faz, a marca que nos deixa e este sentimento sempre insaciado de querer que se chegue mais de perto, só para lhe vermos o rosto de relance, só para sentirmos o que já sentimos, só para tentar esconder a saudade.
A saudade tal como a nostalgia são ambos sentimentos fortes e, nalguns casos, insaciáveis. Isso fá-los grandes, concedendo-lhes um valor tal que nem temos logo noção.

O Novo

Sinto o cheiro a novo, um aroma bissexto que paira no ar e fica e se entranha e é todo ele carregado de esperança, de novidade, de força.
Parece que o erro não tem aqui lugar, anda perdido, desencontrado.  A vontade de sorrir é incontrolável. Pairam pensamentos idealistas, novos conceitos, novas tarefas, novos objectivos para concretizar, novas alegrias e tudo isto se espera num dia tão solarento como o de hoje.
Imagino com a coragem que as palavras se libertam da boca como passarinhos que começam a voar pela primeira vez, carregados de inexperiência e cobertos de uma inabalável esperança. Os seus olhos brilhantes, reluzentes de confiança, cantam agora uma insipiente canção, acompanhada apenas de um sentimento puro e profundo, genuíno, apelando à crença na Felicidade.