domingo, 21 de fevereiro de 2010

És

Vou definir-te. Sinto uma necessidade exacerbada de o fazer. Quero chamar-te pelo nome que te engloba como um todo, que te bebe e possui, que te envolve e me embriaga.
Tens um olhar que é meigo e que me diz que é seguro. Mas não é meigo, é calmo. Não é calmo é intrigante e faz-me querer sabê-lo. Não se sabe é incognoscível. Mas assim também o não diria… queria apenas uma palavra para definir o teu olhar.
Tens um cheiro teu. Não é de rosas, nem de qualquer tipo de flores. É suave, é doce, assemelha-se à pele de um bebé. Mas é totalmente diferente. É, ao mesmo tempo, leve e pesado. É forte, é teu, completamente teu, tão singular… quem me dera conseguir defini-lo numa só palavra.
Tens uma voz inconfundível. Ecoa nas minhas paredes sapiente, parece saber o lugar meu. É grossa e rouca. É forte e altiva, alumia-me, mas não é rude. É reconfortante. É apaziguadora. E quando me soa baixinho, como que em sussurro ou num murmúrio, morro num só momento. Perco-me completamente e faço-me ser da voz que oiço para que a guarde sempre em mim. É incrível como um único som pode ser tanta coisa e coisa nenhuma, pois ainda não encontrei uma palavra que a voz te defina.
O teu toque. Parece magia. Enfeitiça-me. Sinto-me em lugar nenhum que não sei determinar. Perco quaisquer noções de tempo e de espaço. Tens um toque aliciante. É carinhoso e rude, áspero e terno e esta dualidade faz-me ansiá-lo sempre. Queria defini-lo numa só palavra.
Sabes… Sabes a… não é nem morango, nem menta, é doce… mas não o é. Parece que contém acidez, mas não sabe a nada disso. Sabes a uma mistura de coisas agradáveis, rosa, jasmim, morango, uva, chocolate... chocolate! Com uma combinação de sabores ambíguos, como  a laranja, o limão, a malagueta, a pimenta, a hortelã… Alias o suave, o puro a um género de acidez, que nada tem a ver com o que é ácido, mas que o é ao mesmo tempo… Impossível! É impossível definir o teu sabor numa só palavra.
Palavras.
Palavras e palavras contraditórias e complementares.
Palavras e palavras que nada dizem. São todas elas burlescas. Nenhuma delas te define e no entanto tentei escrever-te em tantas.
Pelos vistos, não és literatura. As palavras não são, de todo, ricas afinal. Se nenhuma te consegue definir significa que o vocabulário não é suficientemente extenso. Muito pelo contrário, é risivelmente pequeno, é pobre.
Ou então és tu que és demasiado… Não sei.
Sei que sou fruto da essência toda que és e que não sei definir. Sei que me enfrasco do teu perfume e outro não desejo. Quero beber do teu sabor. Quero ouvir-te mais uma vez com aquela voz que me faz ir e voltar de um lugar que não sei. É teu, pois só tu me mandas para lá. Quero sentir-me observada por ti, que o teu olhar me percorra e nenhum outro. Quero sentir-te. Abraça-me.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Não

Não é cansada, é esgotada mesmo. 

Quero não me ser.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Nua

Enxuga-me as lágrimas. Não quero mais chorar. Não quero mais chorar por ti.
Amanhã o Sol nasce de novo e eu só quero dormir para não acordar.
Pensei que quando me vendesses as tuas palavras afáveis eu me entregava a ti e serias comigo. Mas sou apenas eu. Esquecida. Largada no meio do nada.
Nua… Levaste-me tudo.

Nock Nock

Oiço um nock nock na porta. O meu corpo paralisa como uma estátua.
Sinto um tremer, um calafrio preenche-me o corpo todo e sou pedra naquele momento.
Pensamentos vários, múltiplos em voos de vaivém atingem-me e sou alvo de deliberações que não quero, imagens que não quero ver, recordações das quais não quero lembrar. Tudo dói e me parte.
O meu corpo não é mais do que um frágil pedaço de vidro facilmente estilhaçado. Estou petrificada e, de fora, se me não denotam um único movimento.
Dizem que morri. Não correm para me socorrer porque sabem que há muito que estou morta…
O espírito!
Vê-se a léguas. Ela está desalmada. Não sente. É pedra!
O corpo serve-lhe apenas como um instrumento de construção, de onde fluem ideias onde a maioria delas podem ser realizadas...

Sonhos

São sonhos. São meros míseros sonhos. Aparentemente insignificantes, mas que se repetem e me deixam em nenhuma outra posição senão como se vivesse essa prospectiva. Como sendo real, difamadora, dolente e terrível… terrivelmente próxima.
Quanto mais se aproxima mais monstruosa se me mostra e mais eu me sinto perdida. E pior do que me perder de ti é perder-me de mim. Se estou contigo eu sou contigo, mas se não estou, também não sou simplesmente.
É estranho procurar certezas em sonhos que  mas não podem trazer. Todavia aquilo que sonho é tão possível que me faz duvidar de que não possa acontecer.
E se acontecer, que fazer?
Não sei.
Morro só de sonhar. Não quero, por nada, que o sonho perca as suas capacidades oníricas e me esmague, que me aprisione com o seu olhar vencedor uma ínfima formiga derrotada no meio deste mundo todo.
Não me considero capaz de enfrentar tal coisa e já estou tão balançada que é o vento que me orienta o rumo.
Não sei são, probabilisticamente, as palavras que mais vezes profiro. Vagamente. São tão soltas e sem qualquer conteúdo… são o ar que respiro, no qual me envolvo e me embriago.
Desisti de te perceber. Sou limitada e as minhas capacidades inatas mo não permitem.
Pena sentir. Mas nada mais ao meu alcance está que possa fazer. Não é mais meu dever ocupar-me de um só remo se o barco só avançará com os dois.
Se o que sonho noite após noite sair do seu mundo imaginário para o mundo cruel e real não creio que as minhas forças queiram mais lutar.
Cansei-me. Esgotaste-me.
Não importa se gostas, se não cuidas, se não queres proteger e viver cada minuto como se fosse o último.
Nada do que digas que sentes é relevante se não me deres aquele abraço, se não disseres que queres que seja tua, se não me adocicares com as tuas palavras que sempre tomei como cheias para me preencherem.
Evitas-me e canso-te. E por isso, sou eu agora que me anuncio como fatigada. Sou apenas um ínfima parte deste mundo e há tanta gente melhor.
Quero que sejas feliz e quero sê-lo também.
Se me não queres não desperdices o pouco valor que tenho.
Se o não queres deixa-me ao menos guardá-lo.
Eu amo-te.
Mas pelos vistos amar-te não chega.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Bate Tolo, Bate

Bate. Bate. Bate.
É tão veloz quando te sente.
Não se esquece.
“É teu amor
É tão real.”

Bate. Bate.
É por amor.
Infame e louco,
Docemente apaixonado.

Bate. Bate e deixa bater.
Bate por devaneios.
Bate por anseios
meus.
Bate por te ver.

Bate e vai cedendo.
Escravo, fiel, obediente.
Como que incansável e resistente.
E, até, dolente.

Bate. Bate. Bate.
Admirável é sua firmeza.
Denota-se ávido e ímpar.
Tolo. Nada sabe sobre o amor.

Bate tonto. Bate em vão.
Não percebe.
Mas bate. E como bate!
Animal feroz.
Ameaça – que é já de sua raça–,
Deitar garras em terreno inimigo.
Bate tão cegamente que mesmo vendo não vê.
Não vê ou finge.
Porque o não quer.

E bate. Bate e
Ouve a voz da consciência.
Finge ouvidos moucos.
Grita porque ama e quer bater.
Triste.
Porque sabe que por amar
Se vai perder.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Sempre

É um espírito grande e abrangente, concernente a toda a gente. Digo que, porém toda esta alacridade que se vive neste breve anual período de tempo, é um espírito profundamente sardónico.
Nem tudo é, contudo, pautado nem de alegria nem de ironia, mas tão-só de um discurso deveras loquaz do qual ninguém escapa impune.
Escrevo, portanto, por entre estas linhas lexicais, tudo menos a bela de uma crítica que visa a auto-destruição ou ver-me-ia mais do que uma louca a caminhar para o suicídio.
É, deste modo, sensato reflectir um pouco sobre os seres taciturnos que me rodeiam. São-no cientes de que o são, invadidos por uma felicidade precária e pouco ou nada elucidativa da verdadeira realidade.
O poema da minha vida é uma história deixada em aberto cujo seu desfecho nem lá de longe se avista. Entro neste espírito incongruente e finjo também um sorriso que é, no espelho, sensabor.
Sei, desde sempre, que o fingimento não se alia à Felicidade intrínseca – nunca. Talvez o fio condutor que por mim faz por passar não seja nada mais do que um vontade tremenda de querer acreditar ingenuamente na perpetuação desta alegria, para que as cores não sejam unicamente experienciadas nesta altura do ano, mas tão somente sempre.
E este sempre dá lugar a tudo o que é inefável. É uma palavra bastante robusta e muitas vezes aclamada sem qualquer noção. Temerária, de certo que também o é. A diferença entre a sua conotação positiva e negativa reside singularmente naquilo em que nos queremos fazer acreditar. Apesar de isto não passar de uma mera opinião, penso haver um pouco de luz nesta dúzia de palavras. Muitas vezes nós vestimo-nos das palavras que dizemos convincentes, ainda que pouco, e dissimulamos esse pensamento, para afastar a agonia da proximidade do futuro se tornar presente. Por isso muitas palavras, entre elas a que discuto de momento – o sempre – são interpretadas de diversas maneiras longe da sua verdadeira conotação na altura em que saem repentinas para fora da boca e que levam com as gélidas lufadas do ar do Inverno.
Tal como uns crêem num sempre risonho, também o invejo, mas estou deveras apartada. Contudo, a minha inutilidade faz-me, mesmo sabendo que não é real, acreditar em utopias. Tenho-me, na minha consideração, como uma pessoa bastante realista, todavia, alguns assuntos são tão absurdos que começo a duvidar dessas linhas que me definem.
Se os olhos já estão bem abertos porquê continuar a iludir-me? Não consigo entender por que é que consigo ser tão fraca neste aspecto, se tenho tudo para mostrar que tenho realmente valor. É verdade, tenho. Sempre o soube, no entanto, nem todos os momentos são iluminados e há tantos dias em que o meu orgulho se esconde debaixo da minha cama.
Hoje, pseudo-realista, encontro-me num dilema. A minha veia convicta da sua racionalidade, mostra-me que não sou pequena, muito pelo contrário, não obstante, a minha outra veia, aliada do sentimento, fraca e volátil, quer continuar a fingir que acredita naquilo que se distancia cada vez mais do meu futuro.
Se continuar a caminhar para este abismo, tudo o que já perdi posso nunca mais recuperar. Já pouco de mim detenho, por isso, apelo à minha inteligência que está escondida por detrás da ignorância para sair, para me fortalecer, para me deixar viver e sorrir sem medo.
Estas falsas ocasiões estão repletas de sorrisos amáveis que se deixam vender, confundindo-me. E porque quero que me confundam, para fingir que me iludo e sorrio também, fingindo-me feliz, cega pelo medo, incapacitada e desencorajada, perdida e sem nome nem direito, sequer, ao mesmo.
Não é preciso pedir castigo quando já se vive nele. 



P.S.: Uma das músicas mais fortes, na minha opinião.