Cheira a cidade. Oiço as buzinas barulhentas e impacientes. Quase que me chega o vapor expelido pelos automóveis e, até, o fervor da decadência em que se encontram os próprios condutores.
Os meus vizinhos fazem das suas janelas e varandas locais sociais e divulgam entre si inúmeros pensares. Oiço talheres e armários a bater, um cão a ladrar, vozes dóceis e jovens que riem, sinto a rotina de uma rua grande toda da minha simples e modesta janela.
Não estou curiosa por saber o que escondem tantos vidros apenas gosto de me sentar e sentir a vida neste meu recanto.
Posso alegar que me acalma. Talvez seja uma das minhas variadas evasões, pelo menos é menor o tempo que gasto a pensar em mim.
Às vezes canto. Às vezes danço. Às vezes rezo para que, tal como eu estou às vezes atenta, os meus vizinhos não estejam.
Penso como era bom se me pudesse evadir sem ninguém me ver, ouvir ou sentir e penso quantos o mesmo não quererão.
Por muito mal que cante, dance, pinte… faço-o porque me sinto eu mesma. Sinto-me liberta, livre, abraçada ao meu próprio ego, enamorada com a minha maneira de ser.
Nem sempre tenho destes momentos pessoais por isso mesmo, considero-os fulcrais para o meu bem-estar.
Todavia, sinto-me tantas vezes observada, a ser escutada como se alguém soubesse destas minhas fugas e estivesse ali, de cotovelo apoiado na janela, com a mão desse mesmo braço a segurar a cabeça de um rosto cansado e triste, envelhecido pelo seu estado social, a espiar e a criticar esta minha maneira de ser tão oposta e fugida ao conceito pelo qual todos nesta sociedade se regem, o da Homogeneidade.
Será errado sair da minha carapaça só para dançar com as poucas bases que tenho uma música com a coreografia que, por muito louca que se demonstre, seja para mim a mais sentida?
Será errado cantar por gosto?
Será errado pensar se é errado para evitar ser contaminada pela generalidade da qual todos bebem e sem recalcitrar? Será errado procurar a minha heteronomia, a minha anomalia? Estarei a tornar-me, deste modo, inconveniente ou a atrasar o meu crescimento psicológico ou estarei eu mais próxima da lucidez que tantos anseiam?
É este difuso e complexo bombardeamento que me faz erguer a cabeça e caminhar em direcção à minha tão querida janela duplamente envidraçada, que me mostra abertamente a minha cidade. Respiro já duma brisa nocturna tão fresca e saborosa.
Não vem sozinha, faz-se acompanhar de condimentos especiais – um céu estrelado e uma lua sempre perfeita. A minha paisagem favorita é tão simples e, simultaneamente, excessivamente arrebatadora.
E, sem carecer de qualquer tipo de energia eléctrica, durmo sobre a bela luz, noctívaga e sem artifícios, que me alumia os sonhos.
Os meus vizinhos fazem das suas janelas e varandas locais sociais e divulgam entre si inúmeros pensares. Oiço talheres e armários a bater, um cão a ladrar, vozes dóceis e jovens que riem, sinto a rotina de uma rua grande toda da minha simples e modesta janela.
Não estou curiosa por saber o que escondem tantos vidros apenas gosto de me sentar e sentir a vida neste meu recanto.
Posso alegar que me acalma. Talvez seja uma das minhas variadas evasões, pelo menos é menor o tempo que gasto a pensar em mim.
Às vezes canto. Às vezes danço. Às vezes rezo para que, tal como eu estou às vezes atenta, os meus vizinhos não estejam.
Penso como era bom se me pudesse evadir sem ninguém me ver, ouvir ou sentir e penso quantos o mesmo não quererão.
Por muito mal que cante, dance, pinte… faço-o porque me sinto eu mesma. Sinto-me liberta, livre, abraçada ao meu próprio ego, enamorada com a minha maneira de ser.
Nem sempre tenho destes momentos pessoais por isso mesmo, considero-os fulcrais para o meu bem-estar.
Todavia, sinto-me tantas vezes observada, a ser escutada como se alguém soubesse destas minhas fugas e estivesse ali, de cotovelo apoiado na janela, com a mão desse mesmo braço a segurar a cabeça de um rosto cansado e triste, envelhecido pelo seu estado social, a espiar e a criticar esta minha maneira de ser tão oposta e fugida ao conceito pelo qual todos nesta sociedade se regem, o da Homogeneidade.
Será errado sair da minha carapaça só para dançar com as poucas bases que tenho uma música com a coreografia que, por muito louca que se demonstre, seja para mim a mais sentida?
Será errado cantar por gosto?
Será errado pensar se é errado para evitar ser contaminada pela generalidade da qual todos bebem e sem recalcitrar? Será errado procurar a minha heteronomia, a minha anomalia? Estarei a tornar-me, deste modo, inconveniente ou a atrasar o meu crescimento psicológico ou estarei eu mais próxima da lucidez que tantos anseiam?
É este difuso e complexo bombardeamento que me faz erguer a cabeça e caminhar em direcção à minha tão querida janela duplamente envidraçada, que me mostra abertamente a minha cidade. Respiro já duma brisa nocturna tão fresca e saborosa.
Não vem sozinha, faz-se acompanhar de condimentos especiais – um céu estrelado e uma lua sempre perfeita. A minha paisagem favorita é tão simples e, simultaneamente, excessivamente arrebatadora.
E, sem carecer de qualquer tipo de energia eléctrica, durmo sobre a bela luz, noctívaga e sem artifícios, que me alumia os sonhos.
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