segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Ausência de Cor


Pediram-me para molhar os pés na água salgada só para dar uma espreitadela nos modestos azuis do mar, tão ímpares, tão únicos, tão cansados.
Quiseram que nesse momento fugaz eu o preenche-se com as cores que me definem, como se fosse o acto mais simples do mundo.
Mas eu tenho tantas cores, quais usar de momento?
Teriam que ser as melhores, as perfeitas, as únicas, as que não detenho agora em evidência.
Como corresponder a tal pedido se não tenho, sequer, cores para me pintar?
Uma cor qualquer serve. Já não ligo. Não tem importância se estou amarela ou encarnada se me sinto sempre dentro da mesma tonalidade, um ténue cinza.
Não, não é um cinzento de tristeza profunda, nada disso. É apenas um cinza sublime, ligeiro de quem levanta a sua tão bem guardada bandeira branca e a ergue, exaltando todas as suas fraquezas com a maior das suas forças.
E não é nenhuma tentativa de arranjar desculpas é só que nem os meus lápis de cor tem qualquer outro tom se não neutro e muito menos o terei eu.
Talvez a minha visão também já não abrace de igual forma as cores, aquelas que nos fazem vibrar e sentir seja aquilo que for. Logo eu que sinto que tanto sinto.
Talvez esteja doente por sentir demais, por ser demasiado sensível. É estranho partilhar um mundo com espécies tão díspares entre si, tão dissemelhantes de mim.
Será que existe cura, será que de tantas e tantas vezes que este mar me salgou os pés, me trará desta vez alguma resposta?
Será ele o meu pintor favorito, não desfazendo a minha tremenda admiração por Leonardo, mas não poderá ele deixar uma cor em mim? Uma cor qualquer, uma diferente. Uma que nos una só para eu não me sentir tão igual à multidão que se apressa e tão diferente na minha Interioridade ao ponto de não a conseguir comunicar para partilhar.
As palavras não chegam para me exprimir e tantas vezes o simples bater do vento na minha face queimada afasta tantos males, corre com os maus presságios e deixa-me limpa, sentindo-me como que isenta de imperfeições, entregue àquele momento, ali, completamente rendida, sua. “Leva-me” – digo-lhe sem emitir qualquer som, sem necessitar de qualquer vocábulo, desenho apenas um leve sorriso no rosto.
Como posso explicar a minha admiração pelo banal, pelo que é grosseiro por ser rotineiro, pelo que não é bonito? Como hei-de me colorir?
Gosto, claro, da minha dessincronização com o mundo todo, mas acabo sozinha, sem palavras, nem gente, sem cores, nem mar, sem sensações, nem vontade, diferente, mas igual a toda a gente e com os pés molhados...


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