domingo, 6 de dezembro de 2009

Cheia de Silêncio

É madrugada. As horas teimam em não passar. Quando mais pensar não quero, não consigo não mais o fazer.
 Estou cheia de Silêncio.
Não tenho palavras, nem sons, nem gestos, nem expressões. Estou presa, algemada pelo Silêncio.
Quero vestir uma roupa limpa que não conheço.
Ainda é madrugada e não há João Pestana que me faça adormecer.
Oiço-o, pé ante pé. O som torna-se cada vez mais intenso, cada vez mais audível. Fecho os olhos, procuro não pensar. Qualquer coisa… Qualquer coisa! Nada me vem à cabeça. Porque é que não me vem nada?! O coração bate louco e veloz, sinto vontade de segurar o peito para que este de lá não salte. Grito no silêncio, corro no silêncio, mas as portas fecham-se todas perante mim, abafando indignamente qualquer tentativa de som!
Entra. Tem um caminhar determinado, omnipotente, egocêntrico, de quem sabe o que me espera. Cobre-se-lhe o rosto um sorriso malévolo. Balbuceia coisas várias que faço já por não ouvir.
Fecho os olhos, não quero ver. Quero fingir que não estou, que não sou.
Sinto a pouca roupa, que me adoça o corpo marcado, a afastar-se  violentamente do (m)seu leito.
Não é delicadeza, mas antes uma densa forma de brutidade e agonia simultâneos.
Não sei já o que me dói. Se o hirto cinto de ontem, se estes movimentos incessantes e contínuos do coito… Dói-me o medo. A prisão das palavras que sufocam por não saírem.
Tem uma força sobrenatural e rude, áspera. Não se cansa nem pára.
Aproveita-se da minha leveza e imaturidade e vira-me de modo animalesco, selvagem. Permaneço de costas. Muda a sua meta e escorrem-se-me agora lágrimas.
Não emito qualquer som. Fito o relógio. Os tic tac’s são demorados e asfixiam-me, morro demoradamente em cada um. O tempo não passa.
Ele satisfaz-se e eu acobardo-me.
Como queria que chegasse Segunda-feira…

P.S.: Este texto foi uma tentativa de me pôr no lugar de uma criança que sofre de abusos pelo pai, pois precisava de pensar um pouco no sufoco que estas crianças vivem para conseguir chegar a elas, uma vez que estou a fazer um trabalho sobre a APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima). A imagem é de uma das campanhas feitas pela mesma, pus uma das que considero mais bem conseguidas.

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