segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Perdida

São estradas, moradias, ruas encobertas.
Não se avista o sol ou qualquer ínfima luminosidade, a noite asfixia a vida.
São paredes incompletas, desfeitas, dilaceradas que fazem jorrar sangue de outrem. Tijolos amargurados finalizam objectivos de tempos outros e é a poeira quem lá habita.
Deixada a céu aberto para que este lhe conceda a sua sina, os fortes ventos plantas várias erguem como pássaros audazes em voos rasantes. Estas encontram o seu novo leito desenraizado da sua obra-prima original, nestas ruínas anónimas, sardónicas e temerárias. Pedaços de nada, anulados perante tudo aquilo que respira. Não assumem qualquer posição nem têm qualquer vontade.
São tudo de um Nada. Perdidos.
Por essa degradação os meus pés me indicaram o caminho como se o corpo e a mente estivessem por breves momentos desligados, dissociados e conversassem em línguas antagónicas e incognoscíveis. Dei por mim como sendo cada racha das paredes já desfiguradas, cada tijolo que da sua naturalidade se desencontrou, cada pó dantes soprado. Dei por mim enclausurada nesse retiro. Dei-me como uma ruína, anónima e perdida de tudo e de mim.

P.S.: Fotografia de Nelson Martins e edição da minha autoria.

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