domingo, 27 de setembro de 2009

Encostada


Mergulho nos meus medos, confiante de que todos se evadem num borbulhar inoportuno.
Os meus pensares emergem e quase que se encontram prontos a dispersar. Ergo, vazia e leve, a cabeça, abro os olhos com o coração esperançado e… ainda ali estou, precisamente no mesmo sítio, rodeada pelos mesmos objectos inanimados, exactamente com os mesmos problemas. Parece que o sonhar nada muda, o mergulhar nada esquece, atenua apenas a incontrolável vontade de me ser tão longe daqui.
Sinto-me cansada. De mim tudo levam e para mim, nada meu me resta.
Estou só e malamada. Parece que afinal até me serve este epíteto. Se calhar estavam todos correctos e eu errada. O melhor é mesmo prosseguir as minhas passadas sozinha.
Agora que vou reconstruir um dos meus sonhos, posso dançar nas minhas angústias e esquecer por momentos tudo e todos que me ferem.
Ninguém aceita nem gosta, mas eu sei que vou ser tão eu ali.
E aquele chão meu ninguém o pode tirar.
Só por cima do meu cadáver mo poderão negar.
Não abras os olhos enquanto o tempo urge e vê-me, então, depois a sair por aquela porta que jamais atrás volta.
Ela já está encostada, eu luto, mas parece que já sabe o que me espera.


sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O Teu Silêncio

Sou uma boa confidente e quando não são só as paredes que me ouvem, penduram-se-me as palavras. Fico perante um enorme silêncio, cortante, indefinido, enigmático, impenetrável, fechado.
Da sua chave me desfiz e não há ruído que rompa o silêncio.
Talvez a guitarra, talvez o fado.
Não quero, não obstante, usufruir daquilo que não deve ser pronunciado.
É submisso, deverá não ser falado.
Então não sei porque não ser ler o silêncio. Antes fosse da ronquidão das palavras ou do desgaste do seu constante mau uso, mas é a abstinência da fala, o sossego desassossegado e perturbante, é veneno.
É tormento.
Sinto saudade. Saudade é palavra e sabe tão bem proferi-la sem receio.
Quebra o silêncio, confessar não é vergonha. É descargo de consciência, é partilha de experiências, é quebra na monotonia, é motivo de tristeza ou alegria, é um sinal pautado de verdade.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Segredo


Por entre segredos confesso que acho que te amo.
Sei que deveria ser uma certeza, mas, se o fosse, implicaria que te teria de contar e, como sei que só de minha parte o é, prefiro permanecer numa atitude céptica com as minhas indagações pessoais.
Nesta minha introspecção avalio tudo. Cada sensação.
És uma pessoa tão cheia. É impossível não sentir o que sinto, não saber ouvir-te, não te saber ver ou sentir.
És tão grande que não sei se tenho altura que chegue para te beijar a face.
Sou pequena e tenho uma fraca figura. Sou, apesar de tudo, forte.
Sou dotada de muitas qualidades e, também, muitos defeitos. Claro está, que não sou eu que os enumero, pois são os outros que me podem dizer quem sou e o que sou, por entre vários juízos pessoais, são eles também formadores do meu eu.
Penso que se me conhecesses melhor, não te arrependerias.
Eu quero conhecer-te, é como uma necessidade biológica, como uma sede insaciável, porque tudo em ti tem um aroma a loucura, a proibição, a fatalismo.
Perco-me em ti. Não me importo. És como um labirinto, confuso e detalhado, do qual não pretendo encontrar a saída.
As tuas palavras beijam-me, os teus gestos enlaçam-me e não preciso de mais nada.
Preciso apenas que vejas isso.
Eu já achei a minha verdade. Isto é, penso que achei.
Não te digo, é segredo. É o meu segredo. Logo saberás se fizeres por merecê-lo.
Não percebes que é só isso? Só preciso que te deixes levar pela loucura, já que te dizes também apaixonado.
Mostra-o!
Se sou mais, se me queres deixar ser, larga o passado e dá-me aquilo que eu mereço.
Sou tua.
Infantilmente tua.
Agarra-me com toda a tua força e por favor não me largues. Tenho tanto medo de cair.





Vazio

Chega de ilusões.
Chega de maus presságios. Se há boa coisa que aprendi foi a não caminhar para o Nada onde nada posso obter. Nem uma sincera e simples emoção.
“Não vás por onde não pertences” – se não foi ainda dita por um sábio qualquer, deveria. Uso-a eu de momento pois o meu coração é pequeno e demasiado frágil, não pode com o mundo todo.
Sou uma ínfima parte, mas sou-o com orgulho nos melhores dias.
Nestes, luto apenas contra a tristeza que me invade com a triste verdade.
Como dói. Dói demasiado.
Sou TÃO tonta, meu Deus. Como pude deixar chegar a este ponto.
Tenho tanto medo e não há palmadinha nas costas que me valha. Estou apaixonada e sozinha. Tal aberração não deveria ser permitido. E a quem multar?
A mim. A mim por sentir.
Tira-me, por favor, todas as emoções.
Mais nada te peço.
Estou tão cansada.
Tenho já a cara desfeita por entre as lágrimas que me ocupam a tez queimada.
Tenho o coração mole e demasiado esmigalhado.
Será assim tão difícil gostar de alguém que goste realmente de nós?
Tenho vergonha de mim, quando devia exaltar-me.
Sou tanta coisa e sinto que não sou nada se o não for para ti.
Será justo? Penso que não.
Às vezes o ler alguns pensamentos poderia apaziguar ao menos o meu estado espírito com a crua e despida verdade.
Vem roubar-me a inocência, vem dilacerar-me, vem com emoções fracas enquanto eu te dou cada bocado de mim, só para que nunca nada meu te falte.
Se te fores embora, levas-me contigo.
E a mim de ti, predominará a saudade, e a mim de mim, o vazio pois tudo o resto levaste.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Semente


Talvez não mereça palavras. Que se troquem então as locuções que não passaram de meras ilusões e que agora são-me tão amadas.
É talvez um acto penoso todo este negativismo. Colhe-se aquilo que se semeia e, mesmo aquilo que prevalece ainda como semente, logo se transforma e cresce tão perfeito, tão completo.
Julgo haver aqui um mau uso de vocabulário por entre tanto outro já em desuso, esqueço-me dos valores.

Do valor de cada coisa, de cada semente plantada.

E talvez seja o fervor que me deixa meio atarantada sem saber bem pensar nem ver o grande que está e sempre esteve bem diante dos meus grandes olhos castanhos.

As percepções clarificaram-se e sinto-me submersa num tremendo estado de pureza.

Vejo beleza em tudo o que me rodeia e já nem o mal tanto me atormenta.

Foi plantada subtilmente uma semente e eis que cresce e floresce e…

E tenho um sorriso vencedor, forte, delineado e tenaz, construído com forças naturais tão apaziguadoras, especiais e impulsivas. Distingo-as pela sua diferença, pela sua singularidade, pelo sentimento que me causa, pelas poucas palavras que me faz dizer acompanhadas por todo um sentimentalismo ritmado pelo forte e apressado bater do coração.

É tão inocente. Tão frágil. Tão puro.
Desculpa-se dizendo por meio de batidas ofegantes, que apenas alimenta aquilo que tão perfeitamente semeaste.


P.S.: Imagem retirada do google.

Sinto-te


Por muito que eu queira não consigo esconder, disfarçar ou negar a tremenda presença que tens mim.
Não importa quantas lágrimas são vertidas se contigo tudo é tão perfeito.
E não, não me sinto capaz de te dar razão em tantas tolices tuas, mas é que hoje só me apetece sorrir.
Está tão claro o dia. Está tão aberto o meu olhar e sinto uma sensação de pureza a atravessar-me o corpo, é quase que incontrolável e é tão fresco, tão novo, é tão positivo.
Deixo-me levar. Parece saber, bem melhor o que eu, para onde me leva.
Não tenho medo.
Sinto-me tão livre.
Capaz de tudo.
Vou voar.
Voa comigo.


Sinto-te.

P.S.: Fotografia de Nelson Martins.

Mar


O mar. Eu disse que ia ouvir o mar e não o fui ouvir. Pensei ingenuamente que tão poucas palavras far-me-iam sorrir por tanto tempo.
Precipitei-me. Ainda não é tempo de entregas é, antes, tempo de pé atrás, de fazer cada jogada o mais deliberada possível para ser a mais acertada.

Não ouvi o mar quando ele me quis segredar. Regozijei-me nele, usei-o e embora me fui. Nem para trás olhei. Nem me despedi. Ainda aqui impera a saudade.
E é só a saudade que me resta.

Saudade.

Vou desprender-me de ti.
Talvez seja o mais acertado, ainda que seja o mais distante de mim.

Talvez já o esteja sem que o tenha notado.

Talvez muita coisa não resolva coisa nenhuma.

As palavras não fazem sentido e a vontade escorrega-me da mão. Não sei o que quero se não sou querida ou se não o sinto.
É, então, indiferente se me o mar me canta e encanta, se dança comigo e se é o meu único par, se me beija com os seus lábios salgados ou se é o meu único amante, se continuo com o véu que me cobre e me esconde de todo o mundo e de ti.

Será que ainda vais perceber o quanto te quero?

Ou será que terás apenas essa mesma percepção, mas nunca o mesmo sentimento?

Gostava de invadir sonhos teus e ser um dia quem desejas. Mas de verdade. E não apenas alguém que nos faz sentir bem connosco próprios, que nos acaricia o ego e nos faz sentir importantes.

Quero que saibas que estou aqui, mas não quero que te sirva isso de bengala.

Não quero que envelheças nessa certeza, por muito certa que seja.

Sinto-te tanto em mim que se soubesse que não caia era a pessoa mais feliz do mundo, só por saber que estás comigo por razões que só tu sabes.

Sou perfeccionista e não me contento com um sentir bem, quero ser realmente importante, porque tu já o és e eu… Eu sei que não o sou, e estou longe de roubar esse lugar a quem já o conquistou.

P.S.: Fotografia da minha autoria.