quinta-feira, 9 de abril de 2009

Procura Incessante do Belo


Uma borboleta cessa o seu voo numa papoila encarnada que se encontra à altura dos meus olhos. Baixei-me porque quero observar este momento de perto, atentamente, porque é natural e perfeito. Qualquer movimento brusco pode fazer com que esta imagem se desvaneça, de modo que, todo o cuidado é pouco e mais que precioso.
A borboleta, como que numa atitude de exaltar toda a sua beleza, mostra-se àquela papoila que parece ser tão receptiva de tanto fascínio e, deileitada, observa-a. Tem um bater de asas majestral e impera uma quantidade enorme de respeito perante tal perfeição.
Atrevo-me a criar aqui uma analogia entre a beleza perfeita desta borboleta e a perfeição que os gregos, tão racionalistas, procuravam na arte.
Pois também aqui se trata de uma arte. Não é por falta de materiais para esculpir e gravar determinado momento, ou para pintar, fotografar, ou tantos outros meios para o perpetuar, que não será considerado arte. A minha memória é também um meio, não visível aos olhos de tantos se não aos meus, se assim o consentir. Posso com ela gravar este momento artístico porque é natural.
A Natureza é também ela uma arte que muitos interpretam como tudo menos como tudo aquilo que ela nos oferece, inclusive o prazer que nos pode causar um insignificante e boémio acontecimento como este. Não se poderá falar de arte aqui também? Não é este conceito tão abrangente, tão ilimitado ao ponto de ser a minha memória uma tela e a imagem que gravo desta borboleta na papoila que elegeu para poisar, a tinta que na minha própria tela ponderei representar? Não preciso de mais do que aquilo que, felizmente, fui construída.
E aquilo que nos é banal não tem de perder o seu valor pelo simples facto de estar banalizado. Se o está, teremos que os pensar de outras formas, para exaltar a sua beleza e não aquilo a que estamos habituados a ver.
É preciso perceber que a perfeição grega pode ir muito para além daquilo que pensamos e pode estar em inúmeras coisas. Podemos aproveitá-la e procurá-la em tantas situações comuns e enriquecermo-nos com as pequenas coisas. Pois também nelas existe um valor, quem sabe se não muito mais intrínseco e incomensurável que está sempre lá, nós é que ainda não estamos preparados para o ver. Falta-nos sensibilidade.

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